Quando elle se retirava, appareceu Ignosi, seguido de uma guarda real. Não pude deixar, ao vêl-o, de pensar nas estranhas revoluções da sorte! Aquelle moço, que havia mezes, na minha casa em Durban, me pedia para entrar ao meu serviço--eil-o agora rei, grande Potentado d’Africa, commandando cincoenta mil guerreiros, senhor de povos, de rebanhos e de terras sem conta!
--Salvè, rei! Exclamei eu, erguendo-me com respeito.
--Graças a ti, Macumazan, e aos teus amigos! Exclamou elle, apertando-me as mãos com carinho.
Entrou tambem, como Infandós, na cubata para vêr o barão e o pobre John, que dormia um somno de febre, horrivelmente agitado, sob os olhos compassivos e vigilantes da boa Fulata. Depois, quando sahimos de novo ao terreiro, conversando, perguntei-lhe o que contava elle fazer de Gagula.
--Gagula é o genio mau d’esta terra, disse elle. Conto mandal-a matar para findar com ella, que já é velha de mais!
--Mas tem segredos! Mas sabe muito! Repliquei eu.
--Sabe sobretudo o segredo dos Silenciosos, volveu o rei pousando os olhos em mim com amizade, e o da caverna onde os reis estão enterrados, e o do logar dos diamantes. Ora eu não esqueço a promessa que te fiz, Macumazan. Tu e os teus amigos ireis aos diamantes, guiados por Gagula: e só por isso a poupo.
--Está bem, Ignosi, registro as tuas palavras.
Mas não foi possivel, durante essa semana, pensar nos diamantes, porque através de toda ella a vida do nosso pobre John esteve em risco e os nossos corações em anciedade. Realmente creio que teria morrido, se não fossem os desvelos, a adoravel dedicação de Fulata. Dias amargos esses para nós! O barão, já então restabelecido, e eu, nada mais fizemos durante essa crise atroz, do que entrar, sahir, rondar em pontas de pés a senzala onde elle delirava. Remedios não tinhamos para lhe dar, além d’uma bebida refrescante feita por Fulata com leite e o succo extrahido da raiz d’uma especie de tulipa. Só podiamos contar com a forte natureza d’elle e a boa mercê de Deus.
Em toda a aringa real havia um grande silencio, porque Ignosi, para manter perfeito socego em torno ao doente, ordenára que todos os que lá viviam passassem a outras cubatas remotas. Fulata estava permanentemente ao lado d’elle, sentada no chão, dando-lhe a bebida refrescante, arranjando-lhe as travesseiras feitas das folhas sêccas d’uma planta que faz dormir, enxotando-lhe as moscas do rosto.