No nono dia da doença, á noite, antes de recolher, o barão e eu entramos, segundo o costume, na senzala. A lampada collocada no escabello dava uma luz funebre. Não havia um rumor. E o meu pobre amigo jazia perfeitamente immovel. Pensei que chegára o seu fim, tive um soluço que me suffocou. Mas uma voz, na sombra, murmurou chut!
E, mais de perto, descobrimos que o nosso amigo não estava morto, mas tranquillamente adormecido, sob a caricia das mãos de Fulata, que lhe cobriam a testa, onde um suor fresco começava. Era a crise do nono dia, o somno reparador. O nosso John estava salvo! Dormiu assim dezoito horas. E (mal me atrevo a contal-o, porque não serei acreditado) Fulata, a admiravel, a santa rapariga, dezoito horas se conservou tambem assim, com as mãos pousadas sobre a testa d’elle, sem comer, sem se erguer, sem se mexer, com o receio de que o menor movimento acordasse o seu doente. Quando elle afinal despertou--tivemos de a erguer em braços, porque a heroica enfermeira estava quasi desmaiada de debilidade e fadiga.
A convalescença de John foi rapida. Ao fim d’outra semana, já passeava pelos arredores da cidade, entre os pomares, á beira do rio, acompanhado por Fulata, que o salvára, e a quem elle votára (segundo dizia) um «reconhecimento eterno». Mas eu não agourava bem d’aquelle «reconhecimento», d’aquelles passeios bucolicos... Nos olhos de Fulata havia muita meiguice, muita languidez. E John como marinheiro, era indiscretamente ardente. Depois de uma aventura de guerra, iamos ter, mais perigosa ainda, alguma aventura d’amor!
Apenas John se considerou a si proprio escorreito e «prompto para outra»--Ignosi começou as festas da sua proclamação. Todos os «Indunas» (chefes supremos) das provincias do reino vieram a Lú prestar vassallagem. Houve revistas de tropas, danças, formidaveis banquetes. Os homens que restavam do regimento dos Pardos foram todos doados com terras e rebanhos, e promovidos a officiaes. Ignosi promulgou na Grande Assembléa que d’ora em diante não haveria mais caça aos feiticeiros, nem morte sem julgamento. Depois ordenou que, emquanto nós residissemos no seu reino, gozassemos de honras reaes, e recebessemos sempre, como elle, a saudação de Krum!
No ultimo dia d’este grande festival, eu e os amigos dirigimo-nos ao rei, em grupo, e declaramos-lhe que o momento chegára, de realisar a sua promessa, e de nos mandar conduzir ao logar onde deviam estar as pedras brancas que reluzem.
Ignosi abraçou-nos com grande affecto.
--Não me esqueci, amigos! Já indaguei a verdade, e eis o que sei. Aquella estrada branca que trilhámos acaba além junto das montanhas chamadas as Tres Feiticeiras, onde estão as figuras de pedra, os Silenciosos. Jaz ahi uma grande cova, d’onde se diz que homens muito antigos, em outras idades, tiravam as pedras que reluzem. Para além d’essa cova ha uma funda caverna na rocha, terrivel, maravilhosa, onde vive a Morte, onde jazem os nossos reis mortos, e para onde Tuala já foi conduzido. E por traz d’essa caverna fica uma camara secreta de que só Gagula conhece o segredo. Corre tambem a historia de que, ha muitas gerações, um branco veio aqui, e foi conduzido por uma mulher a essa camara secreta, onde viu riquezas sem conto, mas d’essas que para os Kakuanas nada valem: o branco porém não teve tempo de arrecadar essas riquezas, porque a mulher o trahiu, e o rei d’esses tempos o escorraçou outra vez para além das montanhas...
--A historia é verdadeira, acudi eu. Não te lembras, Ignosi, que nas montanhas, na caverna de gelo, encontramos nós, petrificado, esse homem branco?
--Muito bem me lembro. Por isso vou mandar chamar Gagula, e ordenar-lhe, sob pena de morrer, que vos leve á camara secreta, meus amigos... E as riquezas que encontrardes, oh meus amigos, são vossas!
N’esse instante dois guardas appareceram, trazendo agarrada pelos braços a hedionda Gagula; que gania e os amaldiçoava. Mal a largaram, toda ella se abateu e achatou sobre o chão--como um montão de trapos onde dois olhos ferozes viviam e refulgiam.