Então Gagula poisou a lampada e agarrando o braço do barão, com o dedo estendido para a fórma encruzada:
--Avança, Incubú, homem forte na guerra! Avança, e contempla aquelle que tu mataste e que está agora junto aos seus avós!
O barão deu um passo, e recuou abafando um grito. Sobre a mesa, inteiramente nú, com as pernas encruzadas, e a cabeça que o barão cortára poisada em cima dos joelhos, estava Tuala, ultimo rei dos Kakuanas!... Sim, Tuala, sustentando solemnemente sobre os joelhos a sua hedionda cabeça decepada, e com as vertebras a sahirem-lhe para fóra do pescoço encolhido e como resequido! Sobre todo o corpo negro tinha já uma especie de pellicula gelatinosa e vidrada, que o tornava mais pavoroso, e cuja natureza eu não podia comprehender--até que senti tic, tic, tic, um fio de gottas de agua, que, cahindo da abobada, lhe escorria pelo pescoço, e d’alli pelo corpo, para se escoar depois por um buraco cavado na mesa. Então percebi tudo--o corpo de Tuala estava sendo convertido n’uma stalactite!
E as outras figuras sentadas em torno da mesa eram igualmente reis dos Kakuanas, já transformados em stalactites! Havia trinta e sete--sendo o ultimo o pae de Ignosi. É esta, desde tempos immemoraveis, a maneira por que os Kakuanas conservam os seus reis mortos. Petrificam-nos, expondo-os, durante um longo periodo de annos, a uma queda de agua siliciosa que, lentamente e gotta a gotta, os transforma em estatuas geladas. Estavamos assim diante do mais maravilhoso e exotico Pantheon Real que existe decerto na terra. E nada póde igualar a terrifica impressão que causava aquella série de reis, pertencendo a muitas dynastias, amortalhados n’uma camada de gelo que mal lhes deixava já distinguir as feições, alli sentados, á volta da immensa mesa, em espectral e pavoroso concilio, presididos pela Morte!
E a Morte, o maravilhoso esqueleto, quem o esculpira? Não decerto os Kakuanas. A sua composição, o seu trabalho revelavam uma arte perfeita. Era obra dos artistas phenicios? Fôra collocada alli em tempo de Salomão, para guardar, pelo terror da sua lança, a entrada dos Thesouros? Não sei. Nem sei mesmo contar, com verdade, as estranhas sensações por que passei n’aquella camara sinistra.
CAPITULO XIV
O THESOURO DE SALOMÃO
No emtanto Gagula (que era por vezes extremamente leve e agil) trepára para cima da mesa e acercára-se do cadaver de Tuala, a quem pareceu fallar mysteriosamente; depois seguiu por entre as filas dos reis, dirigindo, ora a um, ora a outro, como a velhos amigos, palavras lentas e graves que não comprehendiamos. Por fim, tendo chegado em frente da Morte, cahiu de bruços, com os braços estendidos, e ficou como mergulhada em oração.
Era um espectaculo tão arripiador, n’aquella penumbra de sepulchro, a hedionda creatura, mais velha que todas as creaturas, fazendo supplicas ao enorme esqueleto--que eu, já enervado, lhe gritei que viesse, nos levasse ao logar dos thesouros.
Immediatamente, a horrivel bruxa saltou da mesa, como um gato, e passando por traz das costas da Morte, ergueu a lampada, mostrou a parede de rocha: