--Entrai, homens brancos, entrai, se não tendes medo!

Olhamos, procurando a entrada. Só vimos a rocha solida e negra.

--Gagula, disse eu com os dentes cerrados, não zombes de nós que te mato!

--Mas a porta é aqui, homens brancos, a porta é aqui! Gania ella, com as costas apoiadas á muralha, onde roçava de leve uma das suas mãos descarnadas.

E então, á luz bruxuleante da lampada, vimos que um bocado da muralha, do feitio e tamanho d’uma porta, se ia erguendo lentamente do sólo, e desapparecendo em cima na rocha, onde devia existir uma cavidade para a receber. Não pesava menos aquella massa de pedra de vinte a trinta toneladas---e era certamente movida por algum machinismo, fundado n’um equilibrio de peso, que uma móla, collocada n’um logar secreto da muralha, punha em movimento. Nem nos lembrou, n’esse momento, arrancar a Gagula o segredo da móla, que erguia a pedra! Pasmados, viamos a immensa massa subir, devagar, muito devagar, até que desappareceu, deixando diante de nós um grande buraco negro.

Estava emfim aberto, para nós n’elle penetrarmos, o caminho que levava aos thesouros de Salomão. A emoção foi tão intensa, que eu, por mim, comecei a tremer. Era pois verdade o que dizia, no seu pedaço de papel, o velho D. José da Silveira? Estavam pois ao nosso alcance, destinadas a nós, as maiores riquezas que jámais um rei accumulou na terra? Poderiamos nós vêr, tocar, agarrar e levar em sacos, o thesouro que fôra de Salomão, maravilha dos Livros santos? Assim parecia--e para isso bastava dar um passo.

Dei esse passo--e com explicavel sofreguidão. Mas Gagula defendia ainda com os braços o buraco negro:

--Escutai, homens das estrellas! Escutai o que é necessario saber! As pedras que brilham, que vós ides vêr, foram tiradas da cova circular não sei por quem, e guardadas aqui não sei por quem. A gente que, de geração em geração, tem vivido n’esta terra, sabia da existencia do thesouro, mas ninguem conhecia o segredo para abrir a porta de pedra! Por fim aconteceu vir aqui um homem branco, talvez tambem das estrellas, que foi bem recebido e bem agasalhado pelo rei d’então, que era o quinto, além, sentado á mesa de pedra. Com elle vinha uma rapariga kakuana; ambos percorreram estas cavernas; e succedeu que por acaso essa mulher, que talvez fosse eu ou que talvez fosse outra como eu, descobriu o segredo da porta. O homem e a mulher entraram, e encheram de pedras um saco pequeno de couro onde ella levava de comer. Ao sahirem, o homem agarrou na mão outra pedra, maior que todas...

E aqui a bruxa parou com os olhos coruscantes cravados em nós.

--Continúa! Exclamei eu, que escutára sem respirar. O homem era D. José da Silveira. Que se passou mais?...