--Que horas são, Quartelmar? Perguntou o barão.
Tirei o relogio. Eram seis horas. Tinhamos entrado ás onze na caverna.
--Infandós ha de dar pela nossa falta, lembrei eu. Se nos não vir voltar esta noite, decerto nos vem procurar...
--E então? Exclamou o barão. De que serve? Infandós não conhece o segredo da porta, ninguem o conhecia senão Gagula. Ainda que conhecesse a porta, não a podia arrombar. Nem todo o exercito dos Kakuanas, com as suas azagaias, póde furar cinco pés de rocha viva. Ninguem nos póde salvar senão Deus!
Houve entre nós um longo, grave silencio. De repente a luz flammejou, mostrando, n’um relevo forte, todo o interior da camara, o grande monte dos marfins brancos, as arcas de dinheiro pintadas de vermelho, o corpo da pobre Fulata estirado diante d’ellas, o saco de couro cheio de diamantes, a vaga refracção que sahia dos cofres de pedra abertos, e as lividas faces de nós tres, alli sentados a um canto, á espera da morte. Depois a luz bruxuleou e morreu.
CAPITULO XV
NAS ENTRANHAS DA TERRA
Não me é possivel descrever com exactidão as agonias d’aquella noite. E ainda assim a divina Misericordia permittiu que dormissemos a espaços. Mas o brusco acordar, a cada instante, era pungente. Por mim, o que mais me torturava era o silencio. Um silencio tenebroso, tangivel, absoluto,--o silencio d’uma sepultura cavada nas profundidades rocheas do globo, e onde todas as artilherias troando, e as trovoadas do céo estalando, não poderiam fazer chegar a menor vibração de som, fosse elle ao menos tão leve como um leve zumbir de mosca... E então, acordado, a monstruosa ironia da nossa situação ainda mais me acabrunhava. Em torno de nós jaziam riquezas incontaveis, bastantes para pagar as dividas de muitos estados, construir frotas de couraçados, erguer palacios todos feitos de ouro, saciar todas as fomes, satisfazer todas as imaginações... E de que nos serviam? Uma pouca de pedra bruta sem valor, mas que nós não podiamos quebrar com as nossas mãos, tornavam-nas inuteis, tão sem valor como a propria pedra! Uma arca inteira de diamantes dariamos nós com infinito prazer por um pouco de pão, ou por outra cabaça d’agua. Mais! Dariamos todas as arcas de diamantes pelo privilegio de morrer de repente, sem sentir, sem soffrer! Na verdade, o que é a riqueza? Sonho, estupida illusão!
--John, disse o barão, do seu canto, n’um dos momentos em que eu assim pensava, quantos phosphoros te restam?
--Oito.