--Oh homens, pois não percebestes ainda que estamos enterrados vivos?
Foi então, só então, que pela primeira vez comprehendi o indizivel horror do que nos succedia! Sim, com effeito! A enorme massa de pedra estava fechada. O unico sêr que lhe conhecia o segredo jazia esborrachado por ella, sob ella. Forçal-a, só se tivessemos alli massas de dynamite! Estava fechada para sempre! E nós alli fechados detraz d’ella!
Durante momentos ficamos mudos, com os cabellos em pé, junto do cadaver de Fulata. Toda a força de homens, a coragem de homens, fugia de nós bruscamente. Eramos sêres inertes. E comprehendiamos agora todo o plano monstruoso de Gagula--as suas ameaças, as suas ironias, o seu sinistro convite para bebermos e comermos diamantes. Sim, era o que tinhamos para beber e comer! Desde Lú, decerto, ella viera planeando a traição--e só nos trouxera á caverna, para nos deixar lá dentro, morrendo junto dos thesouros que appeteceramos!
--É necessario fazer alguma coisa, exclamou o barão, n’uma voz rouca. Animo, rapazes! A lampada vai findar. Vejamos se, por um acaso, podemos achar o segredo, a móla que move a rocha.
Recobramos um momento de energia, e, escorregando no sangue da pobre Fulata, rompemos a apalpar anciosamente a porta e as paredes do corredor. Não achamos nada, em mais d’uma hora de desesperada busca, que nos esfolou as mãos.
--A móla, se tal móla ha, está do lado de fóra, disse eu. Foi por isso que Gagula sahiu, como disse Fulata. Depois, se voltou, é porque se queria certificar que estavamos bem entretidos com os diamantes... Malditos sejam elles, e maldita seja ella!
--De resto, lembrou o barão, se a infame bruxa tentou fugir pela fenda é que sabia bem que pelo lado de dentro não podia levantar a rocha. Não ha nada a fazer com a porta. Vamos vêr outra vez, na camara.
Levantamos então com respeito e cuidado o corpo da pobre Fulata, fomol-o collocar dentro, no chão, com os braços em cruz, junto das arcas de dinheiro. Depois vim buscar o cesto de provisões. E sentados junto dos cofres de pedra atulhados de riquezas que nos não podiam salvar, dividimos as provisões em doze pequenos lotes, que, a dois repastos por dia, nos poderiam sustentar a vida por dois dias. Além da caça fria e das carnes sêccas tinhamos duas cabaças d’agua.
--Bem, jantemos, disse o barão, que é talvez o nosso penultimo jantar n’este mundo.
Pouco era o appetite, naturalmente. Mas havia horas que estavamos em jejum, e aquella parca comida, molhada com avaros goles d’agua, reconfortou-nos e deu-nos um vago alento de esperança. Começamos então a examinar systematicamente as paredes da nossa prisão, contando com a remota possibilidade de que existisse, além da porta da rocha, outra sahida. Esquadrinhamos todos os recantos, arredamos todas as arcas, batemos as muralhas, sondamos o sólo, exploramos a abobada. Ficamos exhaustos sem achar nada. A lampada espirrava e amortecia. Quasi todo o oleo estava chupado.