Durante muito, muito tempo, mudos, em fila, arrastámos os passos na treva, atraz do barão, cujas fortes pernas já frouxeavam.

De repente esbarrámos com elle--que estacára, como attonito.

--Quartelmar! Exclamou elle, agarrando-me convulsivamente o braço. Eu estou a delirar ou aquillo além é luz?

Arregalámos desesperadamente os olhos. E com effeito, lá ao longe, ao fundo do tunnel, vimos uma pallida, vaga mancha de claridade, pouco maior do que um vidro de janella! Com outro alento de esperança estugamos o passo. Momentos depois toda a duvida cessára, deliciosamente. Era luz--uma desmaiada mancha de luz! Tropeçavamos uns contra os outros na nossa anciedade. Mais viva, cada vez mais viva a luz! Por fim, um ar fresco bateu-nos a face!... Mas de repente o tunnel estreitou. Caminhamos curvados. Depois estreitou mais. Gatinhamos, de mãos no chão. E estreitou ainda, como uma toca de raposa. Fomos de rastos. Mas a rocha findára. Era terra, terra friavel, que se esboroava... Um empuxão, um gemido, e o barão furou, e John furou, e eu furei--e sobre as nossas cabeças luziam as bemditas estrellas, e na nossa face batia uma aragem dôce!

De repente faltou-nos o chão, e todos tres, á uma, rolámos, de escantilhão, por um declive abaixo, de terra molle e humida, entre capim e tojo... Agarrei uma coisa e parei. Estonteado, coberto de lôdo, berrei pelos outros, desesperadamente. Um brado em resposta veio de baixo, d’uma terra chã onde o barão fôra parar. Resvalei até lá, e fui encontrar o nosso amigo atordoado, sem folego, mas intacto. Gritámos então por John. E uns olás arquejantes guiaram-nos ao sitio onde uma raiz de arvore, em que ainda estava acavallado, o detivera no desesperado tombo.

Sentámo-nos então todos tres na relva--e vendo-nos fóra da funebre caverna, salvos, sãos, a respirar outra vez o ar da terra, a emoção foi tão forte que começámos a chorar de alegria. Seguramente fôra Deus misericordioso que nos guiára por aquelle tunnel, para aquelle buraco, que era a porta da Vida! E agora, a manhã que julgavamos nunca mais vêr, estava roseando o topo dos montes.

Á sua luz bemdita vimos então que nos achavamos no fundo, ou quasi no fundo, d’aquella immensa cova circular que fôra outr’ora a mina de Diamantes. Lá no alto, já podiamos distinguir as confusas fórmas dos tres colossos. Sem duvida aquelles corredores por onde tinhamos vagueado, tão angustiosamente, communicavam outr’ora com as Diamanteiras. E emquanto ao tenebroso rio... Mas que nos importava agora o rio? A luz do dia clareava. Estavamos envolvidos na luz do dia! Só isto era essencial e dôce de saber!

Não podiamos deixar todavia de pasmar para as nossas figuras. Escaveirados, esgazeados, rotos, cheios de pisaduras, com camadas de pó e de lama, sangue nas mãos e sangue nas faces--eramos, na verdade, tres espantalhos medonhos. Mas não havia a pensar em nos sacudirmos ou nos ageitarmos. Aquelle fundo da cova, humido e regelado, era perigoso para corpos como os nossos tão exhaustos. De sorte que começámos, com lentos e custosos passos, a trepar as ladeiras ingremes, através da greda azulada, agarrando-nos ás raizes, e agarrando-nos ao tojo, n’um esforço ultimo que nos esvaía. Ao fim d’uma hora estava terminada a façanha--e os nossos pés tremulos pisavam outra vez a estrada de Salomão. A umas cem jardas adiante brilhava uma fogueira junto de cabanas, e em volta d’ella estavam homens. Para lá caminhámos, amparando-nos uns aos outros, e parando, meio desmaiados, a cada passo incerto. De repente um dos homens que se aquecia ao lume ergueu-se, avistou-nos--e atirou-se de bruços ao chão, tremendo, gritando de medo.

--Infandós, Infandós, somos nós, teus amigos!

Elle levantou a cabeça, depois o corpo. Por fim correu para nós, com os olhos esbugalhados, e ainda tremendo todo: