--Quem sabe, murmurou elle, se depois de vos deixar morrer no sitio escuro, não acharia ainda artes de me matar a mim tambem!
Para commemorar a nossa volta Ignosi deu um banquete e uma dança. E foi n’essa noite, ao fim da festa, no terreiro real, onde brilhava o luar, que nós annunciámos ao rei o nosso desejo de deixar emfim o seu reino, e regressar á nossa patria.
Ignosi primeiramente pareceu espantado. Depois cobriu a face com as mãos:
--O que vós annunciaes, exclamou elle por fim, retalha o meu coração! Sempre pensei que de todo ficarieis commigo. Para que foi então, oh valentes, que me ajudastes a ser rei? O que quereis? O que vos falta? Mulheres? Campos? Gados? Toda a terra que é minha, é vossa. Escolhei! É uma casa como as que os brancos habitam no Natal que vos falta? Os meus homens, ensinados por vós, edificarão uma entre jardins... Dizei! E cada um dos vossos desejos tem já a minha promessa de rei.
--Não, Ignosi, não! Acudi eu. O que nós simplesmente desejamos é voltar para as nossas terras.
Elle então sorriu com amargura. Sim, bem percebia! Nos nossos corações nunca houvera amor por elle, mas só cubiça das pedras que brilham. Agora tinhamos as pedras para vender, para recolher dinheiro... Estava satisfeito o vil desejo do branco. Que importava pois o amigo que ficava chorando? Malditas fossem as pedras, e idos fossemos nós bem cedo!
Eu pousei-lhe a mão no braço:
--Escuta, Ignosi! As tuas palavras não vêm do teu coração. Escuta. Quando tu andavas exilado na Zululandia, e depois entre os homens brancos do Natal, não sentias tu o desejo da terra d’onde vieras, e de que tua mãe te fallava? Não se te voltavam os olhos para o Norte, para onde estavam os campos e as senzalas onde tu nasceras, onde brincáras com as ovelhas, onde os velhos que passavam no caminho tinham conhecido teu pae?...
--Assim era, Macumazan, assim era! Exclamou o rei commovido.
--Pois do mesmo modo o nosso coração deseja a terra em que nascemos.