Ignosi baixou a cabeça.
--As tuas palavras, como sempre, Macumazan, vêm cheias de verdade e razão. Sim, tendes de partir. E eu ficarei triste, porque não mais me chegarão noticias vossas, e vós sereis para mim como mortos!
Esteve um momento pensando, com o dedo pousado na testa. Depois chamou os chefes mais idosos, annunciou a nossa partida, ordenou que fossemos acompanhados pelo regimento dos Pardos até ás montanhas, e d’ahi com uma escolta e com guias levados pelo caminho do Oasis (de que elle só recentemente tivera noticia), e que nos pouparia todos os trabalhos da passagem das serras. Em seguida, erguendo a mão jurou ante os chefes que não permittiria jámais que nenhum branco entrasse no seu reino a procurar as pedras que brilham:--mas que nós poderiamos voltar sempre porque eramos os irmãos do seu coração! E por fim decretou que os nossos nomes fossem considerados sagrados como os nomes dos Reis Mortos--e que assim se proclamasse por todo o reino, de montanha em montanha.
--E agora ide! Ide antes que os meus olhos vertam lagrimas como os d’uma mulher. Quando estiverdes, longe, nas vossas casas, junto das vossas lareiras, pensai por vezes em mim... Adeus! Adeus para sempre, Incubú, Macumazan, Boguan, grandes homens e meus amigos!
Ergueu-se; esteve um momento olhando fixamente para nós, um por um; depois escondeu a cabeça no seu manto de pelle de leopardo, e fugiu para dentro da senzala real.
Nós afastamo-nos em silencio, e com o coração pezado.
Na madrugada seguinte partimos de Lú acompanhados por Infandós e pelo regimento dos Pardos. Apesar de tão cedo, as ruas estavam apinhadas de gente que nos lançava a saudação Krum, e nos desejava boa jornada! As mulheres atiravam-nos flôres ao passar. Todos os tam-tams resoavam. Era como uma grande ceremonia real.
Pelo caminho Infandós foi-nos explicando que havia, com effeito, uma passagem nas montanhas mais fácil do que aquella por onde vieramos--ou antes, que era possivel descer por aquella alta escarpa, que separa os dois «seios de Sabá» como um muro separa duas torres. Havia um anno, um bando de caçadores Kakuanas, indo ao deserto á procura do abestruz, tinham achado e seguido este caminho. Ao fim d’elle encontraram o deserto; e ao fundo, no horisonte, avistaram massiços de arvores. Levados pela sêde caminharam para lá, e acharam um largo e fertil oasis, cheio de fructa, de caça e d’agua. E d’ahi, diziam os caçadores, podiam-se distinguir no horisonte outros logares ferteis, formando como uma continuação de oasis. D’este modo era talvez possivel diminuir os horrores d’uma nova travessia no deserto.
Ao fim de quatro dias de marcha chegámos com effeito ao alto da escarpa--d’onde avistavamos, por leguas e leguas, outra vez, o medonho deserto amarello em que tanto soffreramos. Foi de madrugada que começámos a descida--e foi então que nos separámos do nosso amigo Infandós.
O excellente homem quasi chorou de mágoa.