E agora resta-me contar a maior maravilha d’esta maravilhosa jornada. Tão estranho, quasi inverosimil é, que, para não lhe augmentar o ar de romance que ella já de per si tem, preciso narral-a com a maxima brevidade e maxima simplicidade.
Foi isto. Na manhã seguinte, no oasis, andava eu passeando ao comprido d’uma fresca ribeira que o banha, quando de repente, n’um frondoso outeiro á sombra de figueiras, com a fachada voltada para a corrente--vejo uma confortavel cabana, construida á maneira cafre, mas com uma porta, uma porta de madeira, em vez do costumado buraco redondo. E quando eu estava pasmando para esta casota humana perdida n’um oasis do deserto, eis que a porta se abre, e apparece, coxeando, encostado a um pau, todo vestido de pelles, e com uma immensa barba até á cintura, um homem branco!
Ficámos a olhar esgazeadamente um para o outro. Justamente n’esse momento o barão e John appareceram. O homem crava os olhos em nós, com um ar quasi afflicto. De repente larga a correr, como um côxo póde correr, aos tropeções. Esbarra, rola no chão. O barão acode. Ergue o homem. E grita:
--Santo Deus! é meu irmão Jorge!
Quasi tenho vergonha de narrar este lance. Parece banalmente inventado pelos moldes do theatro antigo. Mas foi assim.
E ainda mais! Ao alvoroço do barão, ás exclamações que seguiram, outro homem sahiu da cabana, tambem vestido de pelles, com uma espingarda na mão. Ao dar com os olhos em mim larga a arma, leva as mãos á carapinha:
--Oh Macumazan! Oh Macumazan!... Não me conheces? Sou Jim. Sou Jim! Aquelle papel que tu me déste para o patrão perdi-o... Estamos aqui ha dois annos.
E o pobre Jim rojava-se no chão diante de mim, chorando e rindo, n’uma alegria furiosa.
Com effeito, havia dois annos que o irmão do barão e o seu servo Jim viviam n’aquelle oasis. Foi no nosso acampamento n’essa tarde que Jorge Curtis nos contou lentamente toda a sua historia. Dois annos antes partira da aringa de Sitanda, como nós, para atravessar o deserto, e procurar as minas de diamantes para além das montanhas. Por informação porém, que lhe deram uns caçadores de abestruzes que felizmente encontrára, tomou um caminho diverso, e bem melhor do que aquelle que seguira outr’ora o velho D. José da Silveira, e que nós seguiramos guiados pelo seu roteiro. Esse caminho era através do deserto, mas entremeado de oasis. Assim tinha chegado a este, o maior de todos, e estava junto das Montanhas de Salomão, quando lhe aconteceu uma grande desgraça. No dia mesmo em que aqui parára, estava sentado junto do rio, por baixo d’umas penedias, onde Jim, o servo, andava procurando o mel d’abelhas mansas. De repente, a um esforço qualquer que Jim fez em cima, um dos penedos rola e vem cahir sobre uma perna do pobre Jorge, esmigalhando-lh’a horrivelmente! Desde esse dia não pôde mais andar. E muito naturalmente preferiu ficar alli no oasis, onde tinha agua, caça e fructa--do que tentar atravessar de novo o deserto, onde inevitavelmente morreria.
E alli ficou dois annos, como um Robinson Crusoe. Havia justamente dias que decidira mandar Jim para traz, á aringa de Sitanda, a buscar soccorro. Mas quasi tinha a certeza que Jim não voltaria...