--São elles! Exclamei. Não ha duvida! São elles! Jim conhecia eu bem....

O barão ficou pensativo.

--Se meu irmão tinha decidido atravessar o deserto, murmurou por fim, ou o atravessou, ou morreu. Recuar ou mudar de fito não era da tempera d’elle. Ou não vive, ou está para lá das serras.

O Zulú, que lhe seguira as palavras com os grandes olhos brilhantes, tornou muito gravemente:

--É uma longa jornada, Incubú.

--Quartelmar, diga-lhe que não ha jornada que o homem não possa emprehender, replicou o barão (que evidentemente estimava e considerava aquelle singular Zulú). Nada ha que o homem não possa fazer; nem desertos que não possa atravessar, nem montanhas que não possa subir, se puzer n’isso alma e vontade. O essencial é contarmos a vida por coisa nenhuma, alegremente promptos a conserval-a ou a perdel-a, segundo Deus ordenar.

Quando o Zulú comprehendeu, toda a face se lhe illuminou:

--Grandes palavras, meu pai Incubú! Grandes, soberbas palavras que enchem bem a bôca d’um forte! Que é a vida, na verdade? É a semente da herva que o vento sopra aqui e além. Ás vezes cae em boa terra e fructifica; outras vezes, na rocha dura e definha... O homem nasce para morrer. Mais tarde ou mais cedo, que importa? É sempre a morte. Eu por mim irei comtigo, Incubú! Irei por montanha e deserto, e ser-te-hei sempre fiel...

Parou. E subitamente rompeu n’uma d’essas rajadas de poesia, frequentes nos Zulús, que tanto surprehendem os que pela primeira vez as testemunham, e que, apesar de nevoentas, redundantes, e decoradas de geração em geração, mostram que se a raça não é intelligente, é pelo menos imaginativa.

--Que é a vida (exclamava Umbopa, abrindo os braços, n’aquelle tom cantado que os Zulús tomam n’esses momentos de exaltação). Que é a vida? Dizei-me, oh brancos, vós que sabeis os segredos d’este mundo, e do mundo das estrellas que brilha por cima, e do outro mundo que está para além das estrellas! Dizei-me, oh brancos, dizei-me o segredo da vida! D’onde vem ella, para onde vai?... Não podeis, não sabeis! Escutai então! Nós sahimos da treva, e para a treva marchamos. Como um passaro acossado pela tormenta, nós sahimos do fundo da escuridão: durante um momento passamos, e as azas brilham-nos á luz das fogueiras: depois, de novo e para sempre mergulhamos na treva! A vida é o pyrilampo que fulgura de noite e de dia é negro! É o halito dos rebanhos no ar de inverno! É a sombra que corre sobre a relva, e que desapparece ao poente!...