Finalmente, perto das duas horas, vencidos de corpo e d’alma, chegámos ao pé do comoro estranho. Era uma especie de duna d’areia, escura, lisa, atarracada, da altura d’uns trinta metros, e cobrindo na base duas geiras de terreno. Parámos. E desesperados com a sêde, sorvemos o resto da agua. Tinhamos meio quartilho por bôca! Podiamos ter emborcado um almude!
Cada um em silencio se estendeu para dormir. Eu fechava os olhos, resvalava já dôcemente no esquecimento e no sonho, quando ouvi Umbopa ao meu lado murmurar para si proprio em zulú:
--O que é a vida! Se ámanhã não achamos agua, a lua ao nascer encontra aqui quatro mortos... Vida, sombra que passa! Vida, murmurio que finda!
Apesar do calor senti um arripio. Pois tanta era a fadiga, que confrontado por esta probabilidade (uma agonia de sêde n’um deserto d’areia!), adormeci profundamente.
Eram quatro da manhã quando acordei. E bruscamente entrou commigo a tortura da sêde! Estivera todo o tempo sonhando que passeava á beira d’um regato d’agua, muito puro e muito frio, bordado de relvas e de grandes arvores de fructas... Quando me ergui esfreguei a face com ambas as mãos; mãos e face pareceram-me mais sêccas e duras do que coiro; e as palpebras e os beiços estavam tão pegados, tão collados, que tive de os descerrar á força com os dedos, como se os unisse uma colla forte. A madrugada ainda vinha longe; mas não reinava no ar a natural frescura matutina, antes uma espessura molle e morna intoleravelmente pesada. Os outros dormiam... Fiquei callado, olhando em redor a desolada solidão. E pouco a pouco comecei a sentir de novo, junto de mim, o murmurio fresco do regato que corria, o ramalhar da verdura, pios d’aves, e toda uma sensação de paz, de sombra, de abundancia, que me fazia sorrir sósinho n’um immenso contentamento... Ao mesmo tempo tinha a certeza do deserto e da aridez que me envolvia. Creio na verdade que delirei!
Voltei a mim, quando os outros em redor se começaram a mexer, erguendo-se devagar sobre o cotovêlo, esfregando como eu as faces resequidas, separando á força como eu os labios sem saliva e mirrados. Já rompia a claridade. Apenas acordados todos, e conscientes, começámos a fallar da nossa situação--que era sombriamente desesperada. Não nos restava uma gota d’agua! Voltámos os cantis para baixo, chupámos-lhes os gargalos. Mais sêccos que ossos! O capitão John, que guardára a garrafa de cognac, sacou-a da mochila, consultou-nos com um sedento olhar.--Mas o barão arrancou-lh’a das mãos. Beber alcool, n’aquelle estado?... Era a morte.
--Mortos estamos nós (murmurou o capitão encolhendo os hombros) se d’aqui á noite não achamos agua!
--Se o roteiro do Portuguez estivesse exacto, disse eu suspirando, a poça d’agua devia apparecer por aqui, algures... Foi n’esta altura exactamente que elle a achou...
Os outros nem responderam. Realmente nenhum de nós tinha já confiança no roteiro do velho fidalgo. Mesmo que a poça existisse--como encontrar n’essa immensidão o sitio exacto e preciso onde ella estaria, mais pequena e perdida do que uma moeda de prata n’uma praia d’areia? Só por um «bamburrio»! Ou só se ella jazesse junto d’accidente do terreno, que, pela sua especial saliencia na vasta planicie, inevitavelmente attrahisse os olhares e os passos.