O barão no emtanto cofiava a barba pensativamente:

--E todavia, murmurava elle, por aqui a encontrou o velho portuguez! O sitio é este. Foi aqui, em volta. A meio caminho exacto, na linha direita de norte a sul, da aringa de Sitanda ás Serras. É aqui. Aqui esteve agua!

Sim, mas ha trezentos annos! Em tres seculos muita agua brota e sécca! Quem nos afiançava de resto a exactidão do portuguez, esvaído de fome, meio delirado, no começo da sua agonia? Já não era pequena estranheza que elle a tivesse encontrado, n’esta deserta immensidade, justamente quando d’ella lhe dependia a vida!... A não ser que para ella fosse attrahido insensivelmente e naturalmente por algum accidente de terreno, muito saliente e muito visivel de longe--como um bosque, uma collina... Uma collina!

E quando eu assim pensava, eis que o barão grita, como echoando o meu pensamento:

--No alto da collina! Talvez a agua esteja no alto da collina!

--Tolice! Acudiu o capitão encolhendo os hombros. Agua no topo d’uma collina! Onde se viu isso?

--Procuremos! Disse eu, com um bater de coração que era todo de esperança.

Trepámos anciosamente pelo outeiro. Umbopa corria adiante. De repente estaca, com os braços no ar:

--Nanzie manzie! (agua aqui!)

Pulámos para junto d’elle:--e com effeito, mesmo no topo da collina, n’uma cova redonda como uma taça, lá estava agua, agua escura, agua lôbrega--mas agua! Agua! Agua! Gritavamos de puro gozo. E n’um momento, estirados de barriga no chão, com as faces na poça, sorviamos deliciosamente a grandes e rapidos sorvos aquelle liquido desappetitoso, que tão bem imitava agua. Céos! O que bebemos! E mal findámos de beber, arrancámos o fato, saltámos para o charco, e, sentados n’elle, ficámos horas a embeber-nos de frescura através da pelle--da nossa pobre pelle mais dura e mais sêcca que um pergaminho secular.