Quando nos erguemos, refrigerados e saciados, cahimos sobre a carne sêcca. Comemos a fartar. Uma longa cachimbada por cima completou aquella hora de consolação. E o somno que nos tomou até ao meio dia, deitados junto da poça e da sua humidade, foi profundo e bemdito!

Todo a quelle dia tardámos junto da agua, bebendo d’ella, mergulhando n’ella, olhando para ella--e dando louvores sem conta ao velho fidalgo que tão exactamente a marcára no mappa. Por fim, tendo enchido d’agua os estomagos e os cantis, continuámos a marcha, mais animados e ageis, ao erguer da lua cheia. Fizemos vinte e cinco milhas n’essa noite. Não tornámos a encontrar agua. Mas seguiamos confiados, com a certeza de a achar, abundante e fresca, nas faldas das serras. Quando o sol se ergueu e desfez as nevoas, avistámos de novo a cordilheira e os dois «Seios de Sabá» (agora afastados de nós apenas vinte milhas) tomando o céo com a sua magestade sublime. Essas vinte milhas cobrimol-as durante a noite. E ao outro alvorecer pisámos emfim as primeiras ladeiras do seio esquerdo de Sabá!

Com amargo espanto não encontrámos agua, e a nossa já ia findando! Não havia agora esperança de topar nascentes antes de chegarmos á linha de neve, que branquejava lá longe, no alto da serra: e já a sêde nos começava outra vez a torturar. Desconsoladamente fomos arrastando os passos por sobre o torrido chão de lava que formava a base do monte. Caminhada atroz! Pelas onze horas da manhã, apesar de curtos repousos, estavamos exhaustos--por causa sobretudo dos ladrilhos de lava asperos e rugosos que nos magoavam horrivelmente os pés. De sorte que, descobrindo a umas trezentas jardas acima grossos pedregulhos de lava, decidimos descançar umas fartas horas á sua sombra providencial. Para lá nos empurrámos, por lá nos abrigámos. E não foi pequena surpreza (se ainda nos restava a faculdade de experimentar surprezas!) avistar a pequena distancia, n’um planalto formando terraço sobre um barranco, uma extensa e fresca tira de verduras. Evidentemente a lava decompondo-se formára alli um chão de terra, onde as sementes trazidas por passaros tinham alastrado e verdejado... Démos, porém, pouca attenção a essas hervagens, porque não havia lá nem fructo nem agua--e de relva só Nabuchodonosor se conseguiu alimentar. Alli ficámos pois, estirados á sombra dos pedregulhos, sem força no corpo e sem esperança n’alma, pensando que nunca homens de senso se tinham arriscado a mais esteril, mais absurda aventura! Umbopa no emtanto, depois de considerar algum tempo em silencio a leira de verduras, caminhára para lá lentamente. E qual não é o meu assombro ao vêr aquelle individuo, ordinariamente tão composto e grave, romper em pulos phreneticos, brandindo na mão o quer que fosse de verde! Arremettemos para elle, na esperança anciosa de agua descoberta.

--É agua, Umbopa? Gritava eu pulando por sobre a lava.

--Agua e sustento, Macumazan! Exclamava elle agitando no ar a coisa verde, com effusivo triumpho.

Percebi emfim o que era. Era um melão! Tinhamos dado n’um meloal, um enorme meloal bravo, com milhares de melões, a cahir de maduros!

--Melões! Uivei eu para os companheiros que corriam atraz.

--Melões! Melões! Foi o berro victorioso que resoou nas quebradas.

N’um momento, cada um de nós tinha os dentes cravados n’um melão, sôfregamente. Comemos alli, entre todos, uns trinta melões; e apesar de mediocres creio que nunca nada na vida me soube tão deliciosamente. Mas o melão não alimenta--e refrescada a sêde não tardou a fome, mais intensa e aguda. Conservavamos ainda o biltong, a carne sêcca; mas já nos enjoava atrozmente: e além d’isso deviamos poupal-a com avaro cuidado, pela incerteza de encontrar outras provisões na longa ascensão da serra.

N’esse dia, porém, estavamos «em sorte decididamente», como disse John. Lançando os olhos para o deserto, emquanto conversavamos sobre esta terrivel evidencia, a fome--vi de repente uns oito ou dez grandes passaros voando em direcção a nós, lentamente.