--Mentes! A gente d’outros sitios não póde atravessar as montanhas, nem o deserto sem agua onde toda a vida acaba. Mas não importa que mintas... Se sois estranhos e vindes d’outros sitios, tendes de morrer, porque não é permittido a ninguem entrar na terra dos Kakuanas. É a vontade do nosso rei. Preparai-vos pois para morrer, oh gentes!

Fiquei um pouco perturbado--tanto mais que vi alguns dos selvagens levarem logo a mão ao cinto d’onde lhes pendiam umas armas em fórma de pesadas navalhas.

--Que diz esse malandro? Perguntou o capitão, percebendo o meu embaraço.

--Diz simplesmente que nos vai retalhar á faca.

--Santo Deus! Murmurou o nosso amigo.

E, como era seu costume, em frente d’um perigo ou d’uma crise, passou nervosamente a mão pelo queixo e pelos beiços. Alguma coisa decerto lhe succedeu então á dentadura postiça (que momentos antes tirára para lavar e que tornára a pôr), porque n’um relance lhe vi os dentes todos de fóra, e logo sumidos para dentro! Não percebi bem o caso. Mas qual é o meu espanto quando os Kakuanas soltam um grito de terror, e recuam para traz, em tropel!

--Que foi? Exclamei.

--Foram os dentes! Acudiu o barão, excitadamente. Os selvagens viram-lhe os dentes a mover-se... Tira-os de todo, John, tira-os de todo. Talvez os assustes.

O capitão promptamente comprehendeu, passou a mão devagar por sobre a bôca, e escamotou a dentadura. Os Kakuanas no emtanto, n’uma ancia de curiosidade, avançavam de novo, com os olhos arregalados para John. E foi o velho (evidentemente um chefe) que ergueu a voz e a mão, com solemnidade:

--Quem é este homem, oh gentes, que tem o corpo coberto, as pernas núas, cabello só em metade da cara, e um grande olho que reluz? Quem é elle que faz mexer assim á vontade os dentes para dentro e para fóra da bôca?