--Mas se a terra está murada de montanhas, e se não tendes visinhos, para que são tantos soldados?

--A terra está aberta para além (e indicava o Norte). E ás vezes descem de lá multidões, que não sabemos quem são, e que nós destruimos. Já correu a terça parte d’uma vida de homem desde a ultima guerra. Depois houve outra guerra, mas foi entre nós, irmão contra irmão.

--Como foi isso, Infandós?

Infandós começou então uma d’essas historias de pretendentes e de guerras dynasticas, que abundam em todos os continentes. O pae d’elle, Kapa, que era o rei dos Kakuanas, tivera por primeiros filhos, da primeira mulher (elle, Infandós, era filho d’uma concubina) dois gemeos. Ora a lei dos Kakuanas manda que de dois gemeos reaes o mais fraco seja sempre destruido. Mas a mãe, por piedade e amor, escondeu o gemeo mais fraco, que se chamava Tuala, e, ajudada por Gagula, educou-o em segredo n’uma caverna. Quando Kapa morreu, o gemeo mais velho, que se chamava Imotú, foi portanto rei; e logo depois teve da sua mulher favorita um filho por nome Ignosi. Ora por esse tempo passára a guerra com os povos do Norte: os campos não tinham sido semeados; veio uma fome; e havia grande miseria e dôr entre o povo, que, como uma fera esfaimada, rosnava, procurando com os olhos sangrentos alguma coisa em redor para despedaçar. Foi então que Gagula, a mulher que tudo sabe e que não morre, rompeu a dizer que os males todos provinham de que Imotú reinava sem ser rei. Imotú a esse tempo estava doente na sua cubata, com uma ferida. Começou a correr um clamor entre o povo. Por fim, Gagula um dia reune os soldados, vai buscar Tuala, o gemeo mais novo que ella e a mãe tinham escondido nas cavernas, apresenta-o ao povo, descobre-lhe a cinta, e mostra a marca real com que entre os Kakuanas os reis são marcados ao nascer--uma tatuagem representando uma cobra, que se enrosca em torno do ventre real, e vem reunir, sobre o umbigo real, a cabeça e o rabo. E ao mesmo tempo, Gagula gritava: «Eis o vosso verdadeiro rei, que eu salvei e que escondi, para elle vos vir salvar agora!» O povo, tonto de fome, ignorando a verdade, espantado com a evidencia da marca real, largou a bradar: «Este é o rei! Este é o rei!» Alguns sabiam bem que não--e que n’este só havia impostura. Mas n’esse momento, ouvindo os alaridos, o rei Imotú sae doente e tropego da sua cubata, com a mulher e com o filho que tinha tres annos, a saber porque vinham tantos brados e porque pediam elles «o rei!» Immediatamente Tuala, o irmão, corre para elle e crava-lhe uma faca no coração! E o povo, que as acções decididas e bruscas sempre fascinam, gritou logo: «Tuala é rei! Tuala provou que é rei!» Diante d’isto a pobre mulher de Imotú agarrou o filho, o seu Ignosi, e fugiu. Ainda appareceu, passados dias, n’uma aringa, pedindo de comer. Depois viram-na seguir para os lados dos montes e nunca mais voltou.

--De modo, observei eu interessado por esta pagina de historia negra, que Tuala não é o verdadeiro rei.

O velho respondeu com prudencia:

--Tuala, o grande, é rei. Mas se Ignosi vivesse ainda, só esse tinha o legitimo direito de reinar sobre os Kakuanas. A cobra sagrada foi-lhe marcada em torno da cinta. O rei é elle. Sómente decerto ha muito que Ignosi morreu...

Casualmente n’esse instante, voltando-me para fallar aos camaradas que marchavam atraz--esbarrei com Umbopa, que quasi me pisava os calcanhares, absorto n’aquella historia de Imotú e de Ignosi, com uma curiosidade, um interesse que lhe punham nos olhos um brilhar desusado, lhe davam a expressão de quem de repente lembra coisas vagas, remotas, semi-esquecidas, perturbadoras. N’essa occasião permaneci indifferente. Mas, depois, através da jornada, muitas vezes pensei n’aquella anciosa, esgazeada curiosidade do Zulú.


No emtanto já trilharamos algumas fortes milhas d’estrada. As montanhas de Sabá ficavam para traz envoltas nos seus mysticos véos de nevoa. E o paiz cada vez se offerecia mais formoso e mais rico.