--Bem, bem, Infandós, murmurei eu. O que precisamos sobretudo é descançar, fatigados da nossa descida através dos espaços e dos reinos do ar...

A cubata era muito confortavel, com herva aromatica espalhada no chão, grandes pelles servindo de leitos, e vistosos cantaros para a agua. D’ahi a pouco, entre cantos e risos, appareceu á porta um bando de raparigas trazendo leite, mel em covilhetes, fructas em cestos:--e atraz dois rapazes seguiam, arrastando um vitello pelos cornos. Um dos rapazes, tirando a faca do cinto, matou o vitello de um golpe: e logo o outro, agil e destramente, o esfolou e retalhou.

Ajudado por uma das raparigas (que era extremamente bonita), Umbopa passou a cozer a carne n’uma panella de barro, sobre uma alegre fogueira accesa á porta da cubata: e nós mandamos convidar Infandós e Scragga para partilhar do nosso repasto. Quando entraram, notei que, para comer, se não encruzavam no chão á maneira dos Zulús--mas se sentavam em pequenos bancos, que abundavam na cubata encostados ás paredes. O jantar foi longo e affavel. O velho guerreiro todo elle exhibia doçura e respeito. Mas o rapaz Scragga parecia olhar para nós, e para cada um dos nossos gestos, com singular desconfiança. Talvez, ao vêr que nós comiamos, bebiamos, e tinhamos as necessidades de qualquer kakuana, começava a suspeitar da nossa origem divina. Não me agradou este sentimento, tão real e logico. Que nos poderia assegurar as vidas, perdidos entre aquellas turbas negras, senão o terror supersticioso?

Depois de jantar accendemos os cachimbos--o que encheu os nossos amigos d’espanto. Na terra dos Kakuanas, como na dos Zulús, a planta do tabaco cresce em abundancia--mas elles só a sabem usar torrada e sêcca, pulverisada. Só conhecem o rapé.

No emtanto conversamos a respeito da nossa jornada. Infandós já tudo organisára para que ella continuasse na madrugada seguinte, mandando adiante emissarios a prevenir Tuala da nossa chegada ao seu reino. Tuala estava então na sua grande cidade de Lú, preparando-se para a revista de tropas, a dança das flores, e «caça aos feiticeiros», que constituem a maior solemnidade religiosa e militar dos Kakuanas, na primeira semana de junho. E segundo affirmava Infandós, nós deviamos (a não ser que nos detivessem os rios transbordados) entrar as portas de Lú ao fim de dois dias de marcha.

Depois, como começavam a luzir as estrellas e a aldêa ia cahindo em silencio, os nossos amigos deixaram a cubata. E tres de nós atiraram-se logo para cima dos leitos de pelles, emquanto outro, com as carabinas carregadas, velava, no seu turno de sentinella, para prevenir as traições.

Mas essa primeira noite na terra dos Kakuanas foi muito calma e segura.

CAPITULO VII

O REI TUALA

Não me dilatarei nos incidentes da nossa jornada até Lú--que nem foram consideraveis nem pittorescos. Durante dois longos dias trilhámos a estrada de Salomão, por entre ricas terras cultivadas, e alegres povoações que nos encantavam pelo seu ar florescente e calmo. A cada instante passavam por nós troços de gente armada, regimentos emplumados marchando tambem para a cidade, para o grande festival sagrado. No segundo dia, ao pôr do sol, parámos n’uma collina, que a estrada galgava por entre dois renques d’arvores em flôr:--e em baixo, n’uma planicie deliciosamente fertil, avistámos emfim Lú, a capital dos Kakuanas.