Não se podia contemplar aquella creatura sem um arripio de horror. Durante um momento, o estranho monstro permaneceu immovel--depois estendeu lentamente um braço descarnado, a mão sêcca de Parca, verdadeira garra armada de unhas longas e recurvas, e começou, n’uma voz silvante que regelava:

--Rei Tuala, escuta! Povo, escuta! Montes, rios, céos, coisas vivas e coisas mortas, escutai! Escutai, escutai, que o Espirito desceu dentro de mim e eu vou prophetisar!

As syllabas findaram n’um uivo longo e triste. Toda a multidão que enchia a aringa parecia gelada de terror. E eu mesmo, que vira tantas vezes na Africa os esgares e as declamações das feiticeiras, senti não sei que peso no coração. A velha era decerto terrifica.

--Som de passos, som de passos que vem! Proseguiu ella, com a garra tremula no ar. São os passos da gente branca que vem de longe! É a terra que treme sob os passos dos brancos. Cheiro a sangue, cheiro a sangue! São rios de sangue que vão correr. Eu já os vejo, já os sinto. Toda a terra está vermelha, todo o céo fica vermelho! Os leões lambem sangue por toda a parte! Os abutres batem as azas de alegria!

Parou um momento. Os olhos rebrilhavam-lhe como lumes. Depois soltou um grito longo, como uma ululação sepulchral.

--Sou velha! Velha! Velha! Tenho visto correr muito sangue. E hei de vêr correr muito ainda, e dançar de gozo! Que idade pensaes vós que eu tenho? Os vossos paes já me conheceram; e os paes dos vossos paes; e os outros paes que geraram a esses. Tenho visto muitas coisas, aprendi muitas coisas. Já vi o branco, e sei o desejo que elle tem no coração. Quem fez a grande estrada, que desce dos montes? Quem gravou as figuras nas rochas? Não sabeis. Mas eu sei! Foi um povo branco, que estava aqui antes de vós virdes, que voltará e vos destruirá, e ficará aqui quando vos fôrdes como a nuvem de pó que passou!

E de repente, deu um passo, com os dois braços, as duas garras recurvas estendidas para nós:

--Que vindes aqui fazer, gente branca? Vindes das estrellas? Das estrellas! Ah, ah! Vindes procurar um como vós? Não está aqui. E o que veio, ha muito, ha muito, veio só para morrer. São as pedras que brilham que vós procuraes? Eu conheço o vil desejo do coração do branco. Procurai, procurai! Talvez as acheis quando o sangue seccar. Mas voltareis vós ás estrellas, ou ficareis aqui commigo?

Depois com um arremesso terrivel, voltando-se para Umbopa, que as suas garras estendidas pareciam querer despedaçar:

--E tu, tu que tens a pelle escura, quem és, que procuras aqui? Não as pedras que brilham, nem o metal que reluz! Ah, parece-me bem que te conheço! Oh céos! Oh montes! Serás tu?... Eu conheço, eu conheço pelo cheiro o sangue que tens nas veias! Desaperta essa cintura...