--Não, é verdade, rosnou elle.

Baixára o olho cruel, parecia atemorisado. Eu continuei, com soberana confiança:

--Escuta, Tuala! Na arte magica de destruir ninguem nos vence. Destruimos de longe a vida dos homens e a vida dos animaes... E as proprias armas, os ferros mais duros, reduzimol-os de longe a estilhaços. Escuta! Manda cravar além no chão, com a ponta do ferro voltada para cima, essa lança que tens na mão, a tua propria lança, que nunca foi vencida, oh Tuala! Manda, e eu te mostrarei!

Espantado, o rei cedeu. Um soldado cravou no chão, ao fundo da aringa, a lança real, com a ponta faiscando no ar, sob um raio de sol.

--Bem, disse eu. Agora vê em que estilhas vai ficar a tua lança invencivel.

Apontei, disparei:--a bala bateu na folha da lança e separou-a em bocados. Um susurro maior, de assombro, rolou através do terreiro.

Dei então um passo para o rei, com a carabina na mão.

--Tuala, este tubo magico que troveja e destroe é um presente que te fazemos. Se te mostrares leal comnosco ensinar-te-hemos o segredo de o usar e de vencer com elle. Mas se descobrirmos traição em ti, esse proprio tubo se voltará contra o teu peito, e serás como a vacca morta ou como a lança partida. Aqui tens.

E estendi-lhe a arma. Elle tomou-a com desconfiança, com uma sêcca antipathia, e pôl-a no chão, aos pés, devagar.

N’esse instante aquella figura estranha que o acompanhára, e que me parecera uma velha macaca, deu um guincho e surgiu da sombra da cubata real, onde permanecera agachada. Muito devagar, muito devagar, vinha caminhando nas quatro patas:--mas quando chegou defronte do rei, ergueu-se subitamente, arrojou de si a longa cobertura de pelles que a envolvia, e mostrou aos nossos olhos attonitos um vulto extraordinariamente sinistro e quasi phantastico. Era uma mulher evidentemente, uma mulher velhissima, tendo passado todos os limites conhecidos da vida humana. A face que voltou para nós estava reduzida ao tamanho d’uma facesinha de creança, d’uma creança d’um anno, toda em rugas profundas, resequidas, duras e amarellas, como se fossem entalhadas em marfim. A bôca já se não via, de sumida, entre o queixo sahido para fóra e extremamente agudo--e a testa proeminente, livida, com duas sobrancelhas ainda espessas e todas brancas. A cabeça de facto pareceria a d’um cadaver cortido ao sol, se os olhos grandes não refulgissem com intenso fogo e vida. Mas a hediondez principal d’aquelle semblante estava no craneo, todo nú, pellado, liso como uma bola, e a que ella fazia mover e enrugar a pelle como as cobras contrahem e movem o capello.