--Se elle é o herdeiro legitimo, os homens que o trouxeram das estrellas que o provem, fazendo um grande milagre. Só assim o povo acreditará e tomará armas por elle!
--Mas a cobra, o emblema sagrado! Exclamei eu.
--Não basta. A cobra podia ser pintada no ventre já depois de elle ser homem... Necessitamos um milagre! O povo não se move, nem nós mesmos, sem um milagre!
Um milagre! A situação era terrivel e grotesca. Exigir-se um milagre a tres honestos e ingenuos mortaes, que nem sequer sabiam, como qualquer prestidigitador de feira, escamotear uma noz dentro da manga! E terem os honestos mortaes de fazer o milagre--ou de perder a vida!... Voltei-me para os meus companheiros, a explicar rapidamente o risivel e perigoso lance.
--Parece-me que se póde arranjar, disse John, depois de um curto silencio. Peça a estes amigos que nos deixem sós, Quartelmar.
Abri a porta da cubata, os chefes sahiram. E apenas os passos morreram na sombra:
--Temos o eclipse! Exclamou o nosso admiravel John.
Era o eclipse que elle descobrira na vespera, folheando o almanach (o Livro de Bordo), e que n’esse dia, ás duas e quarenta minutos, devia ser visivel em toda a Africa.
--Ahi está o milagre! Affirmava John. É annunciar aos chefes que para lhes provar que Ignosi é o rei, e que devem pegar em armas por elle, nós faremos desapparecer o sol!
A idéa era esplendida. O unico receio é que o almanach estivesse errado.