--Bemvindos, homens das estrellas, bemvindos! Vêdes hoje aqui coisas diversas; mas não tão bellas, não tão bellas! Beijos e festas de mulheres são dôces; mas é mais dôce o brilho das lanças e o cheiro do sangue. Olhai em redor, gentes das estrellas: e se quizerdes casar n’esta terra, escolhei, escolhei... Podeis levar d’estas raparigas as melhores, e tantas quantas pedirem os vossos desejos.
O nosso John, extremamente sensivel e amoroso como todos os marinheiros, deu logo um passo, teve um sorriso, como se se preparasse a aceitar e a recrutar alli, para occupar o seu coração na terra dos Kakuanas, um serralhosinho de donzellas escuras. Mas eu, homem idoso e experiente, receiando as complicações do eterno feminino, apressei-me a recusar:
--Não, Tuala, obrigado! Os homens brancos que vêm das estrellas só se ligam ás mulheres brancas que estão nas estrellas...
Tuala riu:
--Está bem, está bem... Nós temos um proverbio kakuana que diz: «Aproveita a que está perto, porque com certeza a que está longe te engana!» Mas talvez seja d’outro modo nas estrellas... Sêde pois bemvindos, e comece a dança!
Um grande tam-tam resoou, acompanhado por finas flautas de cana em que tres mocinhos sopravam agachados no chão. As fileiras de raparigas avançaram, cantando um canto muito lento e dôce,--e fazendo ondular nas mãos as palmas e os lyrios. Era um grande bailado barbaro, infinitamente pittoresco. As raparigas ora saltavam brandamente sobre as pontas dos pés, n’uma graciosa languidez de gestos; ora, enlaçadas aos pares, redemoinhavam vivamente; ora, fileira contra fileira, simulavam uma batalha, tendo por armas os ramos de palma; ora, ajoelhando em reverencia, offertavam os lyrios ao rei. Depois eram grandes marchas bem ordenadas em que o canto tomava um tom triumphal; e logo uma alegre confusão, n’uma grulhada melodiosa, com um vivo saltar de corpos ageis--que espalhava pelo ar as petalas das flôres desfolhadas.
Por fim o bailado parou: e uma esplendida rapariga, de olhos radiantes, mais airosa que uma Diana caçadora, avançou devagar, e rompeu n’uma dança estranha, cheia de graça e de brilho, em que os movimentos tudo traduziam, desde os requebros fugidios da noiva timida até os pulos bravos da corça ciosa... Assim dançou longamente: os seus olhos cada vez mais rebrilhavam: a grinalda que lhe envolvia a cinta desfizera-se flôr a flôr; e todo o corpo adoravel lhe reluzia ao sol como um bronze humedecido. Por fim, cançada, sorrindo, recuou até ao grupo das bailadeiras onde ficou de olhos baixos, a refrescar-se com o seu ramo de lyrios. Veio então outra, muito alta, dançar; e outra depois, e muitas ainda, todas bellas e habeis;--mas nenhuma como a Diana caçadora tinha belleza, graça e consummada arte.
O rei ergueu a mão, o tam-tam cessou.
--Gentes das estrellas, disse elle, qual d’ellas achaes mais linda?
--A primeira, respondi eu irreflectidamente.