E logo me arrependi, lembrando o que annunciára Infandós--que a mais linda tinha de perecer, sacrificada aos idolos. Ao mesmo tempo deitei um olhar ao sol que continuava a refulgir com uma teima desesperadora.
Tuala no emtanto sorria:
--Os vossos olhos, gentes das estrellas, vêem então como os meus. A primeira é a mais bonita. E mau é para ella que tem de morrer!
--Tem de morrer! Echoou Gagula que parecera dormitar durante a festa, e acordava, já interessada, desde que presentia sangue e dôr.
--Morrer! Exclamei eu, sorrindo tambem, como se não acreditasse. Porque, oh rei? Ella dançou bem, a todos agradou. Além d’isso é moça e linda. Seria cruel e estranho recompensal-o com a morte.
A fera affectou uma sympathia, que, n’elle, arripiava:
--Tambem o lamento, mas é o costume do meu reinado. Os Silenciosos, que estão além na montanha vigiando, precisam receber o seu tributo. Ha uma prophecia do nosso povo que diz: «O rei, que no dia da grande dança não sacrificar aos Silenciosos a mais linda das donzellas, perecerá, e com elle a sua casa». Por não ter cumprido a ordem de «cima», cahiu meu irmão e em seu logar reino eu... Ide (voltando-se para os guardas), trazei a virgem! E tu, meu Scragga, aguça a lança!
Dois da guarda real marcharam para a pobre e dôce rapariga, que desfolhava nervosamente as pétalas do seu lyrio branco. De repente, e só então, ella pareceu comprehender a fatalidade que a perdia, por ser formosa e pura. Deu um grito, tentou fugir. Duas mãos fortes agarraram-na e trouxeram-na, toda em lagrimas e debatendo-se, para diante de Tuala.
--Que nome é o teu, linda moça? Ganiu a horrivel Gagula. Não respondes? Queres que o filho do rei tenha de erguer a lança, sem saber quem tu sejas?
A isto, Scragga deu um salto com sofreguidão, alçando a sua immensa azagaia. Vendo o ferro luzir, a pobre rapariga cessou toda a lucta entre as mãos fortes dos guardas. E com grandes lagrimas que lhe cahiam, ficou toda, toda a tremer.