--Parai! Nós, os filhos das estrellas, decidimos que a rapariga não morrerá! E se alguem ousar ir contra a nossa vontade, ou avançar contra nós um passo, nós, os magicos das grandes artes, apagaremos o sol e mergulharemos o mundo em trevas!

O effeito foi tremendo. Os soldados estacaram. E Scragga ficou diante de nós, com a lança erguida no ar, como uma figura de pedra. Mas Gagula erguera-se, sacudindo os braços com furor:

--Ouvi, ouvi o grande mentiroso, que diz que apaga o sol como um lume da terra! Pois que o faça, e a rapariga irá livre para a sua morada! Mas se o não fizer, oh rei, que elle morra com ella, e com elle morram os cães malditos que vêm latir contra ti!

Sem mais, ergui a mão solemnemente para o sol (movimento que logo imitaram John e o barão) e rompi a bradar. Não me lembro já das coisas absurdas que tumultuosamente atirei ao divino astro. Recitei-lhe versos de Shakespeare, pedaços da Biblia, proverbios, datas, nomes de firmas commerciaes que me acudiram, as ruas da cidade do Cabo,--que sei eu? Tudo o que me affluia aos labios, e que fosse em inglez, na lingua magica. Ousei mesmo espantosas familiaridades com o respeitavel centro do systema planetario. Gritava: «Anda-me assim, solzinho da minha alma! P’ra diante, valente! Deixa avançar essa rica sombra! Ah que estás um catita, meu astro! Mais, mais!...»

E o sol obedecia! A mancha escura, nitida e convexa, avançava, comia a luz immortal. Um grande susurro de terror agitava a multidão. Volvi então a fallar kakuana, livremente:

--Vê tu, oh rei! Vê tu, Gagula! Vêde vós, oh chefes! Mentem então os homens das estrellas? Quizestes a treva eterna, eil-a que vos vem tragar!... Oh sol, pae de tudo, reluzente e triumphante, retira a luz, some-te á nossa ordem, mata o mundo com escuridão e frio, e, que sem ti, parem para sempre estes corações crueis!... O sol vai morrer!

Gritos de terror resoavam já no terreiro. As mulheres, cahidas de joelhos, choravam, implorando misericordia. E o rei, calado, tremia.

Só Gagula resistia ao pavor:

--Vai passar, vai passar! Uivava ella. Eu já vi o sol assim. Ninguem o póde apagar. Ficai quietos! Socegai! A sombra vem e vai... Eu já vi, eu que sou a mais velha, e conheço os segredos!

Eu por mim animava os companheiros: