Occorrer-lhe-ha: se a sua conversão ás ideias conservadoras em materia politica e religiosa representa uma verdadeira apostasia ou será antes um regresso não tanto ás ideias alheias como ás suas proprias?!
Occorrer-lhe-ha: se a obra demolidora das Farpas foi bem comprehendida nos seus intuitos ou, antes, se os leitores ingenuos não tomaram sempre como verdades eternas o que, no fundo, não passava d'um processo superficial que propositadamente apouca ou desmesuradamente amplia os assumptos versados, contanto que o espirito, a verve, a ironia, o humour, espirrassem de cada pagina; n'uma palavra, se as Farpas foram lidas (como, aliás, o seu auctor entendia) como obra de espirito que faz ver os objectos, critical-os, fóra das correlações geraes, d'um modo imprevisto, disforme e comico...
Occorrer-lhe-ha: se a transformação das ideias do insigne escriptor é phenomeno de fresca data—com o advento do Snr. Conselheiro João Franco aos conselhos da corôa, como muita gente pensa—ou se já se vem operando de longe, lentamente, com segurança e criterio justo...
Compenetrado da obrigação moral de responder a estas questões, ao futuro biographo, se leu a obra do seu biographado dentro das correlações geraes, grandes surpresas se lhe levantarão.
E, como preparo, como viatico fortificante para esta viagem de historia e de critica, embeber-se-ha nas paginas augustas{26} da já, e nunca assaz, citada carta do Eça-de-1878 e, ahi, verá as tendencias iniciaes de Ramalho Ortigão, antes da publicação das Farpas.
Paris, «o Paris do chic, das cocottes, das operetas, dos boursiers, dos jockeys, das dansarinas e dos pequenos tyrannos deixara-lhe nos olhos e no espirito um grande deslumbramento: se lá se estivesse estabelecido então, teria escripto, com fervor, no Figaro; teria ido todas as tardes ao Bois curvar o espinhaço diante da libré verde e oiro do personagem taciturno e caquetico que então dominava o mundo... Em Portugal... dizia-se conservador... detestava a Democracia porque lhe supunha caspa... e se não era inteiramente devoto, achava a religião um accessorio indispensavel ao homem bem educado; e preferiria decerto ter escripto a Familia Benoiton a ter composto os Lusiadas.»
Urge não esquecer que estas truncadas linhas são da penna de Eça, aquelle, d'entre os escriptores portuguezes, para quem o termo tinha, dentro da sua arte, uma significação propria, insubstituivel e que elle não sacrificava nem ao talhe aristocratico do periodo nem á phonia de tão grandes effeitos da sua prosa: aquella extraordinaria geração vinda parte de Coimbra, parte de aqui, parte de acolá, propunha-se, antes de mais nada, para a propugnação das novas ideias, acabar com a rethorica. D'ellas, das palavras transcriptas, pode, portanto, concluir-se que Ramalho Ortigão quando abandonou o Porto e veio para Lisbôa (e já não era nenhuma creança) tinha grandes predilecções pelo exhibionismo dourado do 2.º imperio, representado na sumptuaria elegante e custosa de que era symbolo magnifico a volta consuetudinaria autour du lac; que{27} se dizia conservador em politica detestando a democracia; que, em materia religiosa, não sendo inteiramente devoto, estava por isso mesmo longe de ser inteiramente o contrario; e, finalmente, que em litteratura preferia o leve modelo parisiense a toda a obra dos mestres até então consagrados... Permanecia, no entanto, um escriptor de «estylo vernaculo, quinhentista, arcaico, obsoleto: exprimia as suas preferencias de boulevard na linguagem de Bernardes...»
O estylo é o homem. Tal era Ramalho Ortigão pela volta dos 32 annos.
As Farpas deveriam apparecer 3 annos mais tarde; mas antes d'esse apparecimento, Eça de Queiroz já entrevia na Visita de Pesames (das «Historias Côr de Rosa») o realista, o caricaturista, com os processos quasi scientificos do escárneo.
Vieram as Farpas. Como?! «O grande successo da Lanterna tendo posto á moda, como systema, o riso de opposição deu, talvez, origem ás Farpas.»