É rematadamente paradoxal a theoria bastas vezes preconisada, e agora a proposito de Ramalho Ortigão novamente posta a lume, de que é preciso que um homem superior morra como viveu para credito do seu nome e honra da sua memoria; porque, ideologicamente, collide com a evolução do pensamento e porque, materialmente,

... quand l'homme change sans cesse,

se torna difficilimo, senão impossivel, assentar qual o momento preciso da vida em que o seu modo de pensar e agir seja a expressão definitiva que traga para o seu nome e para a sua memoria as devocinaes e unanimes consagrações do credito e da honra.

Assim, Victor Hugo, por exemplo deveria viver a sua longa vida a cantar L'Enfant du Miracle e as Vierges de Verdun ou seria mais consentaneo com a sua dignidade jaser inhumado nos arminhos de Par de França da Monarchia de{24} Julho?! Certamente que a phase republicanissima d'aquelle grande espirito é a que mais convém...

E, em todo o caso, nem os partidarios da realesa do Conde de Chambord nem os da monarchia orleanista pensaram da mesma fórma.

De igual modo, Ramalho Ortigão não perdeu o credito do seu nome e a honra da sua memoria por ter evolucionado no sentido conservador politico e religioso.

Antes, como bom positivista, de bem equilibrado espirito, de mente sã em corpo são, de caracter diamantino e avesso a ambições que lhe podessem empecer os movimentos de homem livre e forte, a sua attitude tem um significado inilludivel e reveste-se d'uma grandeza que aureóla de luminosos nimbos o seu nome e a sua memoria.

Elle lá tinha o summo-sacerdote da sua egreja philosofica—esse austero Comte—a ensinar-lhe o caminho, quando expressamente se refere á disciplina moral que á humanidade advém da doutrina catholico-romana e, por decerto, relendo o volume que, no Regime Moderne, Taine consagra á Egreja, o seu espirito amadurecido e adextrado na algebra das ideias reconheceria a força constructiva da Unidade Catholica (perante o vacuo que o seu desapparecimento causaria) nas palavras d'esse philosopho, que todos os seus biographos dão como um dos mestres do seu espirito:

«Nem a razão philosophica, nem a cultura artistica e litteraria, nem mesmo a honra feudal militar e cavalheiresca, nenhum codigo, nenhuma administração, nenhum governo são capazes de substituil-a n'esse serviço.»

O futuro biographo de Ramalho Ortigão terá, no entanto,{25} de responder a algumas perguntas—indispensaveis respostas para o integro conhecimento do espirito d'este illustre morto—que não deixarão de levantar-se-lhe ao compulsar a sua obra de escriptor e de homem.