Escusado seria dizer que se trata do philosopho positivista Hypolito Taine.

Este cataclysmo sem nome, que a grande cidade soffreu, levou o insigne philosopho dos Ensaios de critica e de Historia e da Historia da Litteratura Inglesa a construir a sua obra monumental: As Origens da França Contemporanea.

Esta serie de volumes, que é o libello accusatorio mais extraordinario, mais vehemente e mais irrespondivel contra o espirito jacobino de 1789 e ao mesmo tempo, portanto, o mais eloquente padrão levantado ás ideias conservadoras, advém, segundo a limpida expressão de Bourget, da attitude mental d'um positivista apoiada sobre factos.

É preciso dizer que Taine morreu sem se ter convertido, ao menos ostensivamente, nem aos principios monarchicos nem aos religiosos.

Taine, ainda muito novo, quando escreve, chama aos seus{22} escriptos: «as minhas experiencias»—é um positivista de cérebro e coração seguro e sincero; tambem as Origens foram o inicio d'um nunca-acabar de publicações, livros, monographias, artigos de jornal e de revista, reveladores d'uma erudição cuidada bebida nos mais seguros documentos, que jaziam empoeirados nos archivos publicos e particulares e que formam, hoje, um corpo de doutrina que refaz inteiramente aquellas velhas noções que, ha 30 annos atraz, nos ministraram sobre a grande Revolução e os seus homens.

As Origens e as publicações que na sua esteira viram a luz atravessaram, naturalmente, os Pyrineus e chegaram a este quadrilatero occidental. Encontraram-nos ainda aturdidos com a oratoria de Mirabeau e a do Snr. Dr. Sebastião de Magalhães Lima que, com poucas duzias de vocabulos contanto que entre elles se escalonem: a liberdade, Danton, a igualdade, a soberania popular, o supremo architecto, os reis esfolando o povo e mais coisas semilhantes, é capaz de fazer um discurso de duas horas cheio de eloquencia e de vacuidade.

E os positivistas de cá principiaram tambem a fazer as suas experiencias e verificaram, com espanto, que nós ainda não tinhamos uma communa, mas que agigantadamente caminhavamos para ella e que—horror!—eram elles com os seus excepcionaes talentos, com os seus maravilhosos livros, com os seus artigos de mestre, quem mais concorrera para a anarchia das ideias e para o quietismo n'essa anarchia, onda de lama que subverteria tudo, sob a formula, propheticamente visionada por Eça, da balburdia sanguinolenta...

Os poetas e os phantasistas não tiveram consciencia nitida das suas responsabilidades, quiçá não viram a caverna{23} temerosa que ajudaram a abrir, talvez que ainda a não vejam; mas elles, sim, que estavam acostumados a palpar a vida friamente, impassivelmente, como cirurgiões de sentimentalidade embotada e fizeram alto.

E, como se tratasse de gente de escól, esses quatro homens não se limitaram a parar, regressaram..., cada um d'elles obedecendo á attitude mental d'um positivista apoiada sobre factos. Regressaram ao tradicionalismo pela via do positivismo.

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