Estou d'aqui a ouvir estrondosamente saltar, da bocca de{29} cada um dos leitores, um argumento decisivo e pesado como cylindro de granito sobre a miseranda pedra-britada de pareceres tão contradictorios, o qual vem a ser que entre 1883 a 1908 decorre um quarto de seculo e que Ramalho mudou de ideias, tendo-se feito cortezão.
Puro engano!
Volvamos a 1883. O Senhor D. Carlos vae partir para o extrangeiro e quem o acompanha é Antonio Augusto de Aguiar.
Que esfusiar de ironias!
«É este homem que vae ser o real olheiro de Vossa Alteza... Um olheiro de galochas de borracha na vista!; um olheiro que vae para ver tudo e que a si mesmo se não viu nunca senão até metade do ventre porque da outra metade até aos pés principia para o seu raio visual o hemispherio do grande indecifravel, do eterno incognoscivel!»; e mais e muitos mais epigrammas. Logo a seguir, porém, n'uma transição brusca:
«E todavia é possivel que o veneravel sabio venha a abusar um pouco do algebrismo technico da sciencia que tão gloriosamente professa...»
Oh! Senhores! Pois se a familia real portugueza entregava o seu primogenito aos cuidados d'um veneravel e, demais a mais, glorioso sabio para o guiar n'essa viagem de estudo, especie de complemento aos trabalhos theoricos de gabinete, que até então o tinham occupado, que prova mais frisante do cuidadoso disvelo que presidiu á orientação espiritual dada ao Principe herdeiro?!
É inutil dizer que Aguiar não era só um chimico illustre; era um homem d'uma cultura superior em qualquer parte do{30} mundo e nem mesmo lhe faltava o apreço pelas formulas mundanas e até um leve sybaritismo que tornava a sua convivencia encantadora e brilhante.
Ainda a escolha de tal homem, se nos lembrarmos de que collaborára na Democracia de José Elias e que precedera o Snr. Dr. Bernardino Machado, e outros não menores liberaes, no grão-mestrado do Grande-Oriente, responde, de irrefutavel maneira, á ironia das Farpas no respeitante á educação acanhada e beata que (segundo ellas) era dada ao Senhor D. Carlos, de modo a tornal-o uma espécie de Rosière de Nanterre...
Mas, para o maior numero dos leitores não eram estas patentes considerações que prevaleciam, mas as que antitheticamente ali se expunham, com os processos quasi scientificos do escarneo, com o systematico riso de opposição: