«Os pedagogos de V. A. educaram-o dentro da virtude, mas fóra da natureza.»
E esses leitores ficaram inteirados.
Pois esta especie de satisfação justiceira feita pelo pamphletario á sua propria consciencia de homem de bem, repete-se muitas e muitas vezes ao longo das Farpas e o futuro biographo, para quem estou garatujando estas linhas subsidiarias, não deve perdel-a de vista, porque n'ella encontrará o filão que o leve a concluir que a attitude de Ramalho, tão retumbantemente posta a nú nos ultimos tempos, não só vinha de longa data, como derivava d'uma tendencia espiritual de inicio, que foi desviada pela leitura—talvez levemente diffusa—dos scientistas modernos e pelo meio em que a sua actividade lettrada se expandiu durante um largo periodo.{31}
Para esses leitores d'então, e que hoje andam na volta dos 50, elle devia viver muito de mal com Deus, porque nas Farpas andava de velha rixa com os homens em geral e, em particular, com o sr. Antonio Maria de Fontes Pereira de Mello e com o cabido da Sé. Deveria ser um homem temeroso que—ou só ou de parceria com um tal Eça de Queiroz que se encostava ás portas da Havaneza vestido de lagarto com um vidro entalado n'um dos olhos—ria, chasqueava de tudo e de todos n'uma irreverencia de demolição; esfarrapando, hoje, o cache-nez do Snr. Duque d'Avila; desfazendo, ámanhã, a maleta philosophica com que viajava S. M. o Senhor D. Pedro de Alcantara; dizendo, no outro dia, as maiores barbaridades sobre o sangue e manhas das pilecas que o Snr. Conde de Sobral mandava correr no nosso Longchamps de Pedrouços; e hoje e ámanhã e sempre fazendo gala d'umas ideias e d'umas toilettes mirabolantes para a sociedade d'então que se sentia escandalisada... mortalmente.
Nós não viamos mais.
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O Centenario de Camões, em 1880 (que o partido republicano soube empolgar) encontra Ramalho Ortigão, pela acção effectiva que n'elle desempenhou, no apogeu da sua gloria de demolição monarchico-religiosa; quando duvidas houvesse lá está o prefacio da edição commemorativa dos Luziadas, mandada fazer pelo Gabinete Portuguez de Leitura do Rio de Janeiro e lá estão as Farpas a attestál-o exhuberantemente.{32}
Um revisteiro de habilidade levou para o palco, como raisonneur da sua revista, a figura saudavel, insolente de mascula compleição de Ramalho, tal qual a tinhamos visto, de jaquetão e chapeu de côco, alto, aprumado, impassivel, enorme—n'aquella memoravel tarde de maio, gloriosa de sol, quando o cortejo camoneano serpenteava n'um halo d'enthusiasmo pelas ruas de Lisboa—por entre a chusma negra das casacas (que ao tempo ainda não eram tidas exclusivamente como traje de noite, evening dress) dos caracteristicos e variegados capellos universitarios, das auriluzentes fardas do exercito e do alto funccionalismo.
Elle entrava, n'essa revista popular de theatrinho modesto, na figuração do Bom-Senso.
A revista teve um grande exito e não me custa a crer que, momentaneamente, Ramalho se sentisse lisongeado dos applausos que, em effigie, todas as noites lhe eram tributados pela massa soberana dos espectadores.