Se, porém, attentarmos nas suas predilecções espirituaes, na sua compreensão e exteriorisação do conforto e da elegancia, no aprumo da sua pessoa e grave gentilesa das suas maneiras; se nos lembrarmos do seu rebarbativo orgulho d'intellectual que tem por obrigação lêr tudo, saber de tudo, com tudo entreter o publico, apoderar-se de todas as ideias, observar todos os phenomenos sociaes, criticar todos os usos, sorrir de todas as gerarchias humanas, escarnecer de todos os ridiculos e ridicularisar todas as coisas; se nos compenetrarmos de que n'aquella, já agora celebre, agua-furtada da C. dos Caetanos vivia e laborava um homem de tão requintada sensibilidade espiritual e cuja philosophia tinha, antes, accentuadas,{33} decididas preferencias pela endumentaria de Petronio e pela mesa de Lucullo, do que escopo na imitação das celebradas frugalidades e abstenções de qualquer especie dos philosophos, desde Socrates até ao Sñr. Theophilo Braga; então, não será demasiado adeantar que a sua figuração no Tutti-li-mundi, com os bravos rascoeiros d'uma população anonyma e anodyna só momentaneamente o poderia lisongear. A sua ideosyncrasia suggerir-lhe-hia, antes, um vago desdem, quasi que um recondito incommodo, talvez a si proprio não confessado, por essa consagração de rua e de palco que não podia casar-se com o seu grande-ar de futuro e proximo frequentador do drawing-room da Senhora D. Maria Kruz e dos bailes no palacio Palmella.

Dois annos volvidos, o centenario pombalino, esse francamente radical, já o não encontra na brecha revolucionaria, ao menos, d'um tão ostensivo modo. Bem pelo contrario. É por demais suggestivo o n.º 1 da 4.ª série das Farpas, relativo a junho e julho de 1882. Esse fasciculo, de braço dado com o Perfil do Marquez de Pombal, de Camillo, deixou a memoria do ministro de D. José n'uma lastima.

A democracia portugueza entendeu apoderar-se do Marquez como lábaro de aspirações sectarias, anti-clericaes, por ter expulsado os jesuitas e decepado as cabeças d'uns tantos nobres—esquecida, a misera!, de que elle substituira o favor até então disfructado pela Companhia de Jesus, ás graças dispensadas aos Oratorianos e á Inquisição (a quem deu o titulo de Magestade) e que os golpes vibrados aos membros da aristocracia redundavam n'um accrescimo de absolutismo para o poder real. Mas não é de Pombal que se trata, se não{34} de Ramalho de 1882, perante a consagração centenaria que as avançadas liberalengas da epoca levaram a cabo com tanto enthusiasmo quanta inconsequencia.

Todo esse fasciculo das Farpas é sobremodo notavel e presta-se a um desenvolvido estudo. N'elle, se patenteiam flagrantemente todas as qualidades e todos os senões do grande escriptor: a graça leve, a ironia funda, a incerteza moral, laivos tedientos de cansaço, assomos d'indignação, pontos de vista certos a espirrarem como faúlas brilhantes d'entre a caligem paradoxal. Para de tudo haver, n'esse supremo escripto, accentuadamente negativista, nem lhe fallece a nota prophetica: «Emquanto á estatua do reformador, em que se falla como complemento do centenario, a cuja celebração acabamos de assistir, ella seria, se a fizessem, o monumento funebre elevado á morte da democracia ou á do senso-commum na sociedade portuguesa. Mas não a farão nunca. É já demais a do Terreiro do Paço para consignar a estima d'este povo pelo charlatanismo dos seus tyrannos».

«Mas não a farão nunca!» Já lá vão 33 annos sobre o dito e, se se não apressam, é natural que Ramalho tenha de subir á cathegoria de propheta maior.

Chegados a 1883, a Carta ao Principe é mais ainda um supremo adeus á satyra virulenta do que a obra magnifica d'um espirito cheio de seiva e alacridade, que joga explendidamente com as palavras e com os conceitos para seu goso proprio.

Basta, n'ella, reler a passagem, sobre todas hilariante, que é a historia do principe Paulo no primeiro dia do seu noivado. Está na memoria de todos: as festas do consorcio principesco findaram «e o commandante da companhia dos vivas,{35} incumbido mediante a esportula de 3$200 e jantar, de fazer de Povo nos dias de gala, havia terminado os seus trabalhos; o rei, com sua natural affabilidade, havia-lhe dito commovido, batendo-lhe no hombro e mettendo-lhe na mão os 3$200: Obrigado, meu Povo!»

É, como resalta aos olhos menos habituados a vêr n'estes assumptos, tremendamente demolidor; Offenbach nunca fez mais nem melhor: toda a psycologia dos enthusiasmos populares, pelas alegrias e fastigio da realeza, posta a nú n'uma dissecação anatomica perfeita...

Comtudo, o periodo não acaba ali; tem o leve berbicacho que segue; «e elle (o commandante dos vivas), com o vozeirão restaurado por duas gemadas, partira á pressa para ir levantar os vivas á Republica n'uma manifestação de provincia para que estava escripturado.»

Gela-se, talvez, o sorriso satisfeito d'aquelles que celebraram a primeira parte da oração, porque, se a logica lhes não fôr coisa omissa, encontrarão, n'esta segunda parte, motivos de sobra para o conhecimento da psycologia dos meneurs de vivorio e de morrorio tão nossos conhecidos...