De fórma que esses livros, peccando pelo que em si continham de pernicioso, lançados para um meio que não sabia dar-lhes o desconto das demasias, duplamente eram perigosos.
Pois padece duvida que a concepção dos nossos deveres e direitos nos advém das emoções estheticas ou intellectuaes que os Mestres verteram com subtileza e tacto, atravez das suas obras, no nosso espirito ávido de luz?!
E não é certo que essas emoções serão tanto mais{11} fortes e duradouras quanto mais bello e paramentado de atavios seja o seu fautor?!
Da obra hegemonica (e chamo-lhe assim porque a obra-de-regresso é pequena e tardia) d'estes tres grandes vultos litterarios, a de Ramalho, sendo talvez aquella que mais influencia teve por—pela sua indole e facilidade de acquisição—penetrar n'um maior ambito de ledores, em todo o caso, é a que menos presta o flanco ás tremendas responsabilidades de ter fomentado este estado de espirito e de factos que caracterisa a Actualidade Portugueza.
O Sr. Dr. Ricardo Jorge, n'um, como todos os que da sua penna diamantina saem, estudo magistral ultimamente publicado sobre o illustre morto, diz-nos:
«Ramalho, o censor, alía n'uma congruencia equilibrada o cosmopolitismo ao congenialismo; domina-o o instincto racial e topico...», profunda observação, d'um analysta consumado, que explica muitas das passagens,{12} se não todo o recheio d'este desataviado escripto, que a Vós, meus senhores e amigos, dedico, porque de Ramalho fostes socios e companheiros, esperando que, ao lêl-o, n'elle reconheçaes (como para si desejava Louis Blanc) o accento d'uma voz sincera e as palpitações d'um coração sedento de justiça.
1915, 2 de Des.º
H.{13}
«As Farpas eram iconoclastas: vinham para desmantelar os bustos olympicos, deviam deixar aos S. Paulos o cuidado de plantar as cruzes.»
EÇA DE QUEIROZ (Carta-biographia de Ramalho Ortigão).
A morte de José Duarte Ramalho Ortigão, um dos ultimos sobreviventes d'uma grande geração de espiritos altos, suscitou um movimento quasi unanime de sympathia, de piedade, de saudade e de admiração (que é consolador enaltecer e util conservar de memoria) por esse glorioso escriptor e por esse grande homem de bem.