Quando, em 1878, Eça de Queiroz escrevia, de Newcastle, a Joaquim de Araujo, aquella tão conhecida e tão citada carta, que constitue a biographia do espirito de Ramalho Ortigão, essa biographia ficou definitivamente feita; tudo o mais que se lhe accrescente—e bastante se tem escripto—não passa, em ultima analyse, de sabias e eruditas variações sobre aquelle leit motif.
De modo que todos esses artigos, alguns celebres, servem mais para determinar o estado-d'alma dos seus auctores—o que é convenientissimo para a historia litteraria—do que propriamente para subsidiar a obra e os intuitos do auctor das Farpas e da Hollanda. O que Eça de Queiroz, com a percuciente e genial agudeza do seu engenho, não podia, ha 30 annos, determinar: era quaes fossem os motivos de ordem intellectual{14} e moral que haveriam de transformar o vibrante pamphletario d'então, no corajoso, no desassombrado, no vibrante auctor do Rei D. Carlos, o Martyrisado. E o que, talvez, elle ainda menos podesse, era demarcar o caminho, a trajectoria que haveria de percorrer um espirito educado já fóra do catholicismo e do romantismo ou tendo-se emancipado d'elles, reclamando-se exclusivamente da Revolução e para a Revolução até talhar, para mortalha do seu despojo terreno, o habito d'uma ordem monastica!
Gloria a Deus por ter consentido que, no anno da Graça de 1915, me fosse dado lêr na Capital (28 de Setembro):
«Ramalho Ortigão é ainda uma figura a estudar e na mudança das suas opiniões cumpre não ver causas e intuitos que lhe deprimam o caracter».
Julio Dantas, na Illustração Portugueza (n.º 503 de 11 de Outubro) escreve:
«... era a affirmação veemente d'um caracter cheio de elevação moral, de nobre independencia e de orgulhoso desprendimento».
E Lopes de Mendonça, em nome da Academia das Sciencias de Lisboa, pronuncia, sobre o caixão, que vae desapparecer para sempre, palavras repassadas de sentimento:
«A sua vida de trabalhador honrado foi um exemplo e um estimulo... Chegou-lhe a hora da paz imperturbada. Quando nos couber a vez de a compartilharmos que seja tão serena, como a d'elle, a nossa consciencia.»
São testemunhos insuspeitos e por isso não é demais celebrar-lhes a nobreza e a sinceridade, quando lhes seria mais commodo remetterem-se, no capitulo da mudança de opiniões,{15} a um discreto silencio ou explical-a physiologicamente pela cachexia senil.
A lição a tirar dos trechos citados, e de muitos outros que seria prolixo accumular, é a respeitosa, a enternecida unanimidade de pareceres sobre a perfeita hombridade civica e moral de Ramalho Ortigão até aos ultimos instantes da vida, porque, quando nos chegar a vez de compartilharmos a paz imperturbada, que a nossa consciencia seja tão serena como a d'elle!