Haviamos chegado ao retiro do aperitivo, onde nos esperava o alcool matutino, a gotta confortavel que aquecia o estomago preparando-o para receber o almoço. Meu tio subiu pesadamente a elevação que dava accesso ao retiro, e achatou-se no comprido banco de pedra, que imitava um tronco d’arvore... e d’ahi, como Satan na montanha mostrando a Jesus as riquezas da terra, disse-me—que ali assim estavam enterrados para mais de tresentos contos.

Eu sacudi a cabeça admirado e murmurei:

—Bem empregado dinheiro!

—Não bebes? Acenei—que bebia e elle serviu-me. Virámos.

O vasto mar azul, em frente, resplandecia ao sol. Velas de barcos fugiam, muito brancas, afflorando a vaga que, ás vezes, se desfazia numa fita de espuma que vinha rolando, rolando e desmanchava-se. Aves pairavam e, subitamente, como se tivessem sido fulminadas, cahiam nagua serena. O céu limpido, de uma côr fina e translucida, estava radiosamente claro. A aragem fresca vinha cheirando á salsugem e balouçava as roseiras, perfumando-se de um novo aroma de jardins, mais delicado do que a maresia da costa. Dois pequenotes nús, muito luzidios, iam garrulamente rompendo o mar, atirando os braços; subiam na vaga inchada e alterosa, desciam no cavamento d’agua e riam como dois jovens tritões que se andassem adestrando no seio glauco do mar perfido. E, mais longe, varios cavallos, quasi afundados nagua, de cabeça alta e inquieta, eram esfregados por moços que riam ás gargalhadas; um mesmo, montado, como um centauro aquatico, obrigava a alimaria a fazer voltas, nadando, a lembrar o hippocampo das antigas lendas. Ao fundo o recorte accidentado e escuro das montanhas.

A cigarra, na grande luz tepida que dourava o colmo da casinhola, entrou a cantar e meu tio, encolhendo as pernas e servindo novos cognacs, enternecido e lyrico, disse poeticamente para attrahir a minha attenção, toda entregue ao mar infinito:

—Ouve, Anselmo, a cigarra... está chamando o sol. E eu, para dar mais força ao lyrismo, ajuntei, voltando os olhos para o alto:

—Sim, meu tio: é a cigarra que chama a primavera.

Ali ficámos muito tempo, num farniente aprazivel, beberricando, até que o criado nos veiu annunciar o almoço. Descemos lentamente. Eu vinha alquebrado de preguiça e sem apetite, sedento. A agua de um repuxo, que esguichava, iriada e cantante, excitou ainda mais a sêde do meu estomago abrasado. Parei um momento para admirar a elegancia de um cysne que circulava com garbo, abrindo, de vez em quando, ao borrifo fresco, as grandes azas alvadias, iguaes ás que, outr’ora, Jupiter lascivamente tomou, em uma das suas metamorphoses, para cingir o corpo esplendido de Leda. Atravéz da agua limpida viam-se as palmouras rosadas remando com lentidão.

Meu tio, que havia chegado á varanda, chamou-me. Não quiz partir sem acariciar a ave airosa e adiantei-me estendendo a mão para amaciar-lhe o pescoço formoso; o cysne, porém, selvagem e arisco, entrou a espadanar com as azas e, escancarando o bico, a grasnar, poz-se em attitude ostensiva, atirando-me bicadas. Deixei-o. Vendo-me partir veiu precipitadamente até a borda da bacia e, a grasnar, parecia desafiar-me. Longe, no fundo do jardim, levantou-se um alarido terrivel.