Elle mirou-me dos pés á cabeça e pareceu satisfeito com o meu terno de brim pardo, não desdenhando os sapatos amarellos, que eu trouxera para «surrar em casa», como dizia pittorescamente minha santa mãi quando prégava sobre economia domestica.
—Que tal o alojamento, Anselmo?
Gabei sem reservas a belleza e o conforto do tecto hospitaleiro, creio até que o teria comparado aos palacios maravilhosos de Aladino e á soberba vivenda de Sindbad se um homem, com dois enormes regadores vermelhos, não viesse interromper o nosso colloquio. Era o Jeronymo, jardineiro. Parou um momento para dar a meu tio a boa nova do desabrochamento das camelias e, radiante, limpando com o braço o suor da testa, disse que já havia dois botões das rajadas. Meu tio felicitou-o e, como o Jeronymo retomasse os regadores, accrescentou—que as violetas estavam encharcadas.
—Não ha duvida... não ha duvida, senhor; ahi vem o sol, disse o homem. Quem dirá que hontem choveu como choveu...? A terra está secca e a planta carece d’agua. Olhe, se eu fosse outro, deixava as purpuras sem agua... mas vá Vossoria ver... a terra está mirrada, parece que a seccaram ao fogo. É verdade que ali não chove por causa do telheiro.
—E de cravos, como vamos?
—Ainda não os ha, disse o Jeronymo, consternado, e derreando-se ao peso dos regadores, foi-se, bradando a um gato que raspava a terra fofa de um taboleiro.
—Gostas de flores, Anselmo?
—Loucamente, meu tio.
E fomos caminhando para a casinhola rustica. Sobre o colmo cantava uma cigarra.
—Bom tempo, presagiou meu tio.