Mas o bruto, impassivel e frio, recebendo a chicara que eu lhe entregava, sempre sisudo e grave como um preceptor, perguntou seccamente se eu queria o banho morno ou de chuva?
—De chuva, respondi humilhado e corrido. Que vergonha tive! Parecia-me que aquelle imperturbavel servidor viera ao quarto apenas para exprobrar, com o seu silencio inquebrantavel, o meu procedimento da vespera. E tinha justas razões esse criado, porque afinal... que indecencia para um homem da minha casta, herdeiro de uma tradição sem mancha, principalmente de vinhos, porque na familia o unico que bebe é meu tio, os mais, desde o meu intemerato bisavô, implicado nas conspirações patrioticas do Xavier, até meu pai, nunca foram além do côco do pote ou da calha da nascente. A adega dos Ribas, inesgotavel e pura, foi sempre a limpida fonte dos «Suspiros» numa chanfradura de rocha, velada por um bosquesinho de tayobas, fonte cujas aguas historicas mataram, em tempos, a sêde do grande Dirceu quando a paixão e a politica o arrebatavam para os ermos. E ha ainda hoje fanaticos do poeta que affirmam distinguir no murmurio da agua o nome suave de Marilia.
Cheio de vergonha saltei da cama, enfiei a cabaia e, sem olhar para a alcova faustosa, desci acompanhando o criado que me deixou á porta do banheiro.
Lavado e vestido, apresentei-me na sala de jantar, clara de sol e cheia de um festivo canto de passarinhos. Accendi um charuto e, de mãos enfiadas nos bolsos, comecei a passear de um lado para outro, assobiando uma aria rustica.
Ia admirar tranquillamente um quadro de frutas, quando o criado veiu dizer-me, muito teso, estendendo um gesto nobre para o exterior:—que meu tio estava á minha espera no jardim.
Respirei alliviado! Ia emfim fugir aos olhos daquelle Argos da moralidade. Atirei fóra o charuto e desci.
Meu tio, todo de branco, com um gorro de seda á cabeça, agachado, examinava os canteiros. Sentindo o rumor dos meus passos no saibro, que scintillava ao sol, voltou o rosto purpureo e nas suas bochechas nedias perpassou um sorriso fugitivo. Ergueu-se resfolgando, com as mãos papudas cheias de terra, de sorte que não me atrevi a beijal-as para não macular os meus bigodes lustrosos e rescendentes.
—Meu tio passou bem a noite?
—Como um abbade. E tu?
—Maravilhosamente...