O criado serviu-me a sôpa e verteu em um calice de crystal verde um vinho claro, que bebi com avidez antes da primeira colherada; e comecei a jantar desordenadamente, servindo-me de um lombo, com petits-pois, no momento justo em que o criado me apresentava um badejete, que repudiei com desprezo.
Mas o meu ataque mais sério foi á garrafeira.
Não sei dar a razão desse delirio bacchico, tão singular, tão novo em meus habitos de sobriedade. Os vinhos attrahiam-me. Depois de uma aza de frango, que apenas trinquei, fui sedentamente ao Bourgogne e enxuguei dois copos. Mas quando appareceu o Champagne, uma meia garrafa deitada sobre crystaes de neve em uma geladeira de prata, tive impetos de fazer ali assim, para o criado impassivel, um improviso sobre esse precioso vinho, que é a alma do festim, o remate requintado do gozo, o companheiro do amor. Vinho alambreado que parece cantar nas taças um dithyrambo de ouro, vinho impaciente que ferve e espuma, vinho que tem as coleras do oceano—ambrosia da nova éra, vinho vivo e intelligente, vinho que tem alma... e que eu jámais provara. Bebi sofrego.
Subitamente notei que me sentara na cadeira abbacial do meu tio. Estava explicada a minha sêde insaciavel. Os moveis adquirem os vicios de quem os possue. Aquella cadeira estava inveterada. Era repousado em seus braços que meu tio dormia o seu primeiro somno digestivo.
E foi esse confortavel movel que fez com que eu sómente readquirisse as minhas faculdades de ser ás 10 horas da manhan seguinte, quando me vieram trazer ao quarto o café e os jornaes.
IV
Lembra-me ter visto em um livro erudito este conceito:—«A embriaguez é a poesia da vida digestiva» e, se ainda me é fiel a memoria, o sabio que assim se exprime é Letourneau. Penso que tem razão o philosopho, porque Simão Carreira, que cultiva, com tanto esmero, a Arte divina de Apollo, não despreza as garrafas e os seus melhores heroicos, os versos intrepidos do seu poema Os Pincaros da Mantiqueira foram escriptos emquanto durou um quinto de Cartaxo com que o brindou o padre Coriolano. Eu, porém, de imaginação escassa e tão perro para a cadencia, soffri profundamente os effeitos da poesia estonteante, que me poz no espirito uma nuvem densa e na lingua uma saburra espessa.
Confesso que senti o pudor subir-me ás faces quando dei com o ar sisudo e grave do criado, que me apresentava cerimoniosamente um taboleiro de xarão. Puxei o lençol até o queixo e, de olhos baixos, tomei a chicara e, a pequeninos goles, fui chuchurreando até á ultima gotta. Por fim, no intuito de quebrar aquella serenidade fleugmatica do homem, aventurei sorridente:
—Bem bom café! Decididamente não ha bebida como esta.