Puz-me de pé e, estirando os braços, todo retorcido como o Laocoonte, afastei-me do ádyto das libações. Na sala era tão espesso o vapor, que meus olhos nada distinguiram a principio—movia-me, como um deus, dentro de nuvens tenues. Por fim, sentindo nos pés uma humidade tépida, notei que a agua transbordava alagando o mosaico do santuario. Desci precipitadamente as alças fechando as copiosas guelas leoninas, mergulhei o braço, puxei pela corrente do escoadouro e a agua, que me escaldara, começou a baixar silenciosamente até que ficou em nivel para que eu pudesse molhar-me todo regaladamente, mergulhando e nadando. A fauce fria jorrou ainda alguns litros para abrandar a temperatura e o nevoeiro diluiu-se. Apanhei sobre o marmore negro um sabonete de Corydalis, uma grande esponja macia e saltei no tanque. A agua abriu-se para receber-me e fechou-se ficando apenas a flux a minha cabeça, fluctuando como uma boia.
Que delicia! Como senti, nesse momento suave da minha vida, não possuir os dotes de Simão Carreira, que tudo canta, que tudo rima: os olhos castanhos da Bemvinda e os repolhos planturosos da horta do Segurado. Elle, de certo, em meu lugar, acharia uma estrophe sonorosa e nova para louvar e divinisar a agua benigna desse tanque; elle, o sempre inspirado, saberia pagar com um punhado de heroicos a lixivia e o conforto.
Eu, porém, sem estro, incapaz da mais insignificante imagem poetica, limitei-me a esfregar a cabeça, não para acordar a inspiração adormecida, mas simplesmente para tirar a poeira... e mergulhei. Quando vim á tona trepei á borda do tanque e, á falta de quem me esfregasse, resolvi fazer eu mesmo a operação e vesti-me todo de espuma. Tive impetos extravagantes de correr ao espelho para admirar-me sob esse aspecto mousseux, mas recuei porque, Ribas anadyomay, comprehendi que não me seria facil abrir os olhos—a espuma escorria em floccos pelo meu rosto.
Atirei-me, de novo, ao banheiro e refocilei voluptuosamente. A temperatura baixara sensivelmente quando sahi gottejante para o pequeno estrado. Enfiei o jupon, calcei as chinelas de feltro e arrastei-me até junto da mesinha, onde experimentei a garrafa verde—whisky. Ia deitar-me quando bateram á porta. Acudi com pressa lembrando-me de meu tio que ficara na imminencia de uma apoplexia. Indaguei, e uma voz disse-me de fóra—que a ceia estava servida, ajuntando:
—Aqui tem vosmecê o robe de chambre para sahir.
Abri devagarinho a porta e estiquei o braço, que derreou ao peso da investidura com que eu me devia apresentar á mesa. Era uma especie de cabaia de seda, debruada a cairel de prata, com bordados extravagantes e alamares; mangas immensas e uma gola almofadada, com forro de setim côr de perola. Admirei-a e com ella recolhi-me ao biombo para vestir os primeiros linhos indispensaveis e calçar os sapatos.
Sobre a camisa e as ceroulas abotoei a cabaia que, sentindo a falta das protuberancias do meu tio, cahiu em dobras molles ao longo do meu corpo, menos fornido e mais baixo. Por compostura apertei a cinta com o cordão de seda. Dividi o cabello, alisei os bigodes e, derramando na palma da mão algumas gottas de Cherry Blossom, plantei-me diante do espelho, revendo-me sob esse trajo que me dava a figura classica de um veneziano, como os que eu vira em gravuras, dentre os quaes me ficara eterno na memoria o typo veneravel de Brabantio, pai da incomparavel e abnegada Desdemona, tão cruelmente immolada pelo mouro negro.
Cheiroso e fresco sahi para o corredor, onde me esperava o criado. Seguimos.
A sala de jantar estava de novo illuminada... mas sem meu tio. Recolhera-se de certo. Sentei-me só e em silencio.
Havia no ar um cheiro apetitoso de frituras e de flôres. Dos pratos cobertos sahia um fumego tenue rescendendo a temperos. Toda a porcelana florejada tinha o monogramma do proprietario—S. R. em ouro fosco.