Safando a camisa lembrei-me do ribeiro poetico da minha villa onde todos nós da familia, do mais velho ao mais novo, um depois do outro, por decencia, vamos, todas as manhans, limpar o corpo e endurecer os musculos sob a folhagem viçosa dos cajueiros em flôr.

Nú, como um grego do tempo juvenil da graça olympica, mirei-me ao grande espelho que, indecorosamente, me reflectiu da cabeça aos pés—e achei-me perfeito e forte e masculo, um modelo rijo e gracioso de Marte desnudado, um inteiriço e reforçado exemplar de homem, digno herdeiro dos Ribas. Sorri com vaidade para o crystal que começava a empanar-se com o vapor das fauces do leão fervente.

A sala estava como uma estufa—era um banho russo. Corri a refugiar-me atráz do biombo e estirei-me no divan fresco e macio servindo-me, em um calice, da garrafa vermelha que trazia, pendente do gargalo, uma chapa denunciando: cognac. Bebi e regalei-me esticando as pernas núas no couro frio.

De papo para o ar comecei a pensar na delicia da vida e achei mesquinha a casa paterna, taciturna e calada, entre arvores murmurantes, invadida pelas moscas e pelos gafanhotos, com os corredores sombrios, atravancados de sellins, ás vezes visitada pelos bacorinhos que vêm familiarmente grunhir em baixo da mesa de jantar, catando os restos do almoço. Pareceu-me triste e acanhada a existencia que eu levara nesse valle melancolico sem agitação e sem conforto, ignorante de tudo, longe de imaginar que o mundo podia proporcionar delicias de tal ordem—delicias como aquella sala de jantar, delicias como aquelle banheiro, onde meu tio tonificava as suas banhas e onde eu ia, emfim, lavar-me para entrar limpo e lepido na vida nova, buliciosa e surprehendente, que eu sentia rumorejar ao longe, nessa grande cidade atravessada, amollecida e somnolentamente, nas almofadas fôfas do carro do ruivo. Ia emfim ver o mundo.

Aquelle banheiro que ali estava era a pia onde o mais novo, o mais esperançoso rebento dos Ribas ia, contricto e nú, receber o baptismo da civilisação, deixando nagua morna a poeira dos caminhos e a barbarie da sua alma ignorante e insaciada.

Confesso que tive inveja da sorte de meu tio e lastimei profundamente os meus que lá haviam ficado chocando pintos e debulhando o grão. Que vale uma ninhada diante de uma mesa como esta que meus olhos contemplam, carregada de crystaes rutilantes? Que valem as colheitas comparadas ao gozo de um mergulho nesta piscina de marmore que me espera? Decididamente a grande sciencia do viver não consiste em saber accumular fortuna, mas em saber dissipal-a. O ideal do homem moderno é o filho prodigo. Estou certo de que a moral não condemna Harpagon senão porque o miseravel não tinha noção da sciencia elegante e fina de dissipar.

Para que ser rico sem um banheiro assim?...

Serapião, meu prospero tio, ronca, deslisa para baixo da mesa farta do teu salão de abundancia, porque estás dando ao mundo, e especialmente ao teu sobrinho e herdeiro, uma lição de savoir vivre!

Enchi de novo o calice e bebi, mas engolindo o sorvo, percebi que me enganara na garrafa: não era a vermelha, eu havia tomado a azul: old-brandy.

Desde, porém, que havia quatro, porque insistir na vermelha? O acaso dirigira o meu braço e o acaso algumas vezes opéra sabiamente e governa como uma bussola. Repentinamente lembrei-me do banho e não foi sem pena que deixei a minha posição em decubito, a mais propria do homem, segundo ouvi dizer a um sybarita das minhas relações campestres.