—Perdão, meu tio! murmurei corado.
—Não sou inglez. Eu cá não faço cerimonias. Havias de engulil-o? disse a rir.
As carnes não me tentaram, mas fui forçado a mastigar uma febra de roast-beef e uma fatia de presunto. O tio devorava tranquillamente, sem levantar os olhos do prato.
Ao fim do almoço, saciado d’agua, afastei-me para a varanda. Fazia calor—as folhas murchavam á luz caustica e ouvia-se a voz fina do Jeronymo, que cantava aparando a grama.
Debruçado para o jardim, olhando vagamente, numa abstracção de todo o meu ser, comecei a sentir-me invadido por uma tristeza que me cahia nalma, suave e melancolica como um crepusculo.
Uma sombra interior velava a radiosa alegria do meu espirito e sem causa visivel, porque diante de mim havia a vívida e resplandecente claridade do sol, o immaculado azul e todo o verdor viçoso dos arbustos que as borboletas corriam, sentia como a aproximação de uma tormenta, as primeiras ancias da lagrima.
Indecifravel phenomeno o da visão da ausencia!...
Um véu espesso passou-me pelos olhos. Tudo que a minha vista alcançava desappareceu num momento e vi, como em scenario, num longinquo horizonte nebuloso, aereo, a paisagem silenciosa da minha terra, no valle fresco e verde, no fundo do qual escorre, quasi sem bulha, o corrego das Almas, que vai de sitio em sitio, abeberando as hortas e os rebanhos, sempre manso e sempre claro, que não o toldam senão as flores dos espinheiros que o margeiam, e essas, pobresinhas! com um leve fremito d’agua, desfazem-se, desapparecem e passam quasi invisiveis como um pollen subtil.
E a minha casa, além! bem visivel, branca no verdejante pomar, e gente na eira e gente pelos caminhos, os meus com as suas feições tão nitidas, tão perfeitamente accentuadas, que eu os fui reconhecendo a um e um, como se os visse, não atravéz da miragem meiga de minh’alma, mas na verdade fiel da vida que além vivem. Repentinamente a visão diluiu-se. Alguem chamava-me baixinho—voltei-me. Era o criado:
—O senhor seu tio pergunta se não quer ir á cidade?