—Dize-lhe que vou... e, dissimulando, passei rapidamente o lenço pelos olhos.

V

Quando desci, aprumado e airoso no meu terno de cheviot claro, meu tio roncava na casinhota do jardim, com a cabeça descahida sobre o recosto do banco, o papo em evidencia, todo molhado de suor e rubro, a boca aberta, os braços pendentes num abandono flaccido. A cartola repousava sobre a mesa e o precioso unicornio, encastoado de ouro, jazia aos seus pés como um cajado vulgar.

A impaciencia e a temperatura da hora tepida, macia e somnolenta haviam, por assim dizer, narcotisado o pobre homem. Da janella do meu quarto para onde, de instante a instante, elle levantava os olhos anciosos, eu o via caminhar ao sol, com enormes bocejos, riscando a areia com a ponta da bengala. Subiu e desceu lentamente as áleas do jardim, por fim perdeu-se e só o vi depois nessa posição pacata, refestelado, a dormir á sésta como as roseiras dormiam no silencio canicular desse meio-dia abrasado, murchas, enlanguecidas, emquanto a terra incançavel infundia-lhes a seiva vivificante para que, mais tarde, ao frescor vesperal do crepusculo, os botões despertassem e distendessem as petalas, abrindo-se.

Á porta estacionava uma victoria. O alto cavallo, negro e luzidio, escarvava fogosamente, picado pelo sol. Meu tio grugrulejou como se sorvesse uma golfada quente e esfregou os olhos.

—Boa sésta, meu tio. Elle ergueu-se molle, com os braços abertos em cruz, o ventre empinado e falou espremendo-se:

—Boa estafa é que foi. Que diabo estiveste fazendo até agora? Sacou o relogio e mostrou-me: Uma hora da tarde.

—Um trabalho para descobrir a roupa, meu tio. Arranjaram-me de tal modo a mala que, para encontrar um par de meias, tive de despejal-a.

Meu tio mirou-me detidamente e, com satisfação e vaidade, li no seu olhar—que me achara digno. Tomou a cartola e eu apanhei o unicornio para poupar-lhe o sacrificio de abaixar-se.