—Molas excellentes, hein?

—Excellentes, concordei hilariante e baboso; excellentes, meu tio, e, sem que elle percebesse, levantei-me um poucochinho e deixei-me cahir para ter o gosto de afundar como afundei.

O cocheiro, um inglez, magro, raspado, retezou-se na boléa tenteando as redeas para soffrear o cavallo negro que pinoteava.

—S. Francisco, disse seccamente meu tio e logo rodámos.

Estiquei as pernas mergulhando os pés no pellego felpudo.

—Não fumas, Anselmo? E as mãos papudas offereciam-me charutos. Esgazeado e hirto de espanto entalei-me no fundo do carro. Pois meu tio... a offerecer-me charutos...! É uma cilada, disse commigo. Meu pai, com a sua moral primitiva, entende que fumar é um vicio execrando para os moços, principalmente em presença dos mais velhos. Em casa, quando me tenta o desejo de tragar uma fumaça, corro ao meu quarto e fecho-me ou desço ao pomar para não ir de encontro ao preceito paterno, que é uma herança dos maiores. Educado em principios de tanta austeridade, agradeci os charutos. Meu tio, porém, insistiu:

—Fuma, homem; já não és criança, disse num tom cheio de sinceridade que varreu do meu espirito o resto de escrupulos. Fuma—e entregou-me um charuto. Ainda assim, senti certo vexame, elle, porém, insistiu novamente, animando-me.

—Não tens phosphoros?

—Sim, meu tio; tenho aqui. Accendi o charuto e baforei para o mar a primeira fumaça dando as primicias do meu havana ao respeito, como os antigos pastores offereciam a Deus as primicias dos seus rebanhos, depois recostei-me, fumando ante as barbas grisalhas do irmão de meu pai.

O Rio começava a apparecer-me. A victoria corria cruzando-se com outros carros elegantes, onde iam senhoras faustosamente vestidas. Dos bonds espiavam-nos com interesse curioso. Eu encolhia-me para que me não vissem, ia ali assim como um deus num nicho, apenas visivel para os que, como eu, passavam luxuosamente em carruagens e que nos procuravam reconhecer. Meu tio, habituado ao luxo, ia indifferente, todo preoccupado com o seu charuto; eu não, mostrava-me, queria que as mulheres olhassem para o meu rosto rosado e fresco, para os meus olhos femininos, para os meus labios purpureos e carnudos, para os meus bigodes sedosos, para o meu largo peito forte, e que reconhecessem em mim um modelo de homem, um remanescente da idade morta, quando a força era divinisada e o musculo merecia poemas; um solido e masculo exemplar de sertanejo capaz de amal-as com mais ardencia e com mais impetuosidade do que esses rapazes pallidos, de olhos tristes, que passavam acabrunhados e exhaustos, sem viço, sem enthusiasmo, frouxos e melancolicos, sugados pelo vampiro da anemia, derreados pelas vigilias devassas.