A victoria parou. Saltámos e eu, curioso de vêr e de admirar maravilhas, olhei em volta. Era uma grande praça quadrada e clara, murada pelos edificios que reverberavam á luz radiante do sol. Ao meio, sobre um pedestal negro, a estatua tosca de um homem, numa attitude cheia de solemnidade, a mão estendida num gesto classico de tribuna, como a allegoria iconica do meeting que é, em nossos dias cultos e morigerados, o escoadouro da inoffensiva indignação das massas. Meu tio, indicando-me a effigie escura, disse:

—José Bonifacio, o patriarcha da nossa independencia e da tribuna dos comicios.

Admirei reverente o patriarcha, rijo, inflexivel, immovel no seu molde perpetuo de bronze, como a imagem do patriotismo isolada na vasta ágora, para exemplo das gerações. Meu tio, descrevendo com o seu unicornio um hemicyclo no ar, falou para despertar o meu civismo:

—Olha, Anselmo, de um lado a religião, Deus e o mysterio. É a ala santa do perimetro do nosso patriota—e levantou a bengala. Meus olhos seguiram a sua indicação e viram no alto da torre um gallo rutilante. Tive impetos de pedir a significação da emblematica... Seria, por acaso, a figuração do bicho que cantou tres vezes despertando a consciencia de Pedro na grande noite triste de Gethsemani? Mas meu tio já havia baixado a bengala.

—Aquillo que ali vês ao fundo, Anselmo, é a sciencia.

Um casarão alvadio com um terraço á frente. Mal tive tempo de admirar porque a voz grave do cicerone já pronunciava:

—Á esquerda, o commercio, a industria, o movimento... Com effeito a vida parecia decorrer do ponto indicado—bonds chegavam despejando gente, partiam cheios; carros cruzavam-se: era um vozear confuso, indistincto—pregões, appellos, silvos, tilintar de campainhas, brados. Olhei atordoado. Meu tio voltara-se para a estatua e contemplava-a extatico.

—Grande homem! disse eu.

—Grande patriota! accrescentou meu tio e voltou-se com a bengala em riste, risonho, mostrando-me uma rua em frente:

—Conheces?