—Não, meu tio, mas noto que está cheia de gente—parece que vem por ahi abaixo um oceano popular para revindictas.

—É sempre assim, disse e, com lentidão, abriu a sobrecasaca e tirou do bolso profundo um maço de papeis. O sol abrasava pondo-me pruritos na carne e meu tio, calmo e tranquillamente, suando e resfolgando, consultava os papeis. Por fim atafulhou com o maço no bolso e, vagarosamente, desdobrou diante de meus olhos uma folha de papel azul e, indicando-me uma phrase com o dedo grosso, sorriu mirando-me. Era uma carta minha e o que ali estava debaixo do pesado e humido indicador, era apenas isto—«ver a rua do Ouvidor». Sem ler mais, estremecendo, cravei os olhos na rua... e, sem uma palavra, mudo, abatido, como se me tivessem dado uma noticia de morte, suspirei.

—Uma surpresa, hein?

—Uma desillusão, meu tio, disse eu, murcho. Mas o sol ardia. Quasi torrados fomos caminhando para a desillusão, porque ali, ao menos, havia sombra e fresco. Eu ia consternado.

—Mas então... que te parece?

—A mim?

—Sim...?!

—Ah! meu tio... Póde ser que esta rua seja uma maravilha, mas infelizmente, antes de vel-a, antes de pisal-a, eu a sonhara... e o sonho, que é uma visão do mysterio, vai sempre além da realidade.

—Então... que esperavas tu?

—Eu? uma avenida como as que tenho admirado em gravuras, como as que tenho visto descriptas: com grandes casas apalaçadas, ruas cuidadosamente calçadas de marmore... architectura e gosto, arte e elegancia, e largueza sobretudo, meu tio; largueza, muita largueza... Um velhinho magro, esgrouviado, com um amplo casaco côr de castanha, surrado, tomou a frente a meu tio estendendo-lhe ambas as mãos, pallidas como as de um cadaver. Encostaram-se a uma vitrina. O velho sacou do bolso uma enorme carteira e foi desdobrando papeis, cochichando, com risinhos. Meu tio approvava com ar digno, coçando o papo. Parado em meio da rua, olhando, eu sentia cahirem dentro em mim, um a um, todos os meus sonhos ingenuos de roceiro. A multidão cruzava-se num formigamento activo; grupos chocavam-se. Havia constantemente um chapinhar de solas, fru-fru de sedas e, de longe, como um hausto perenne e sofrego, vinha um aáah surdo... De vez em vez parecia-me ouvir o rumor cadenciado e longinquo do desfilar de um exercito.