Sentia-me attrahido pelo luxo dos mostradores. Meus olhos esmerilhavam, rebuscavam, examinando as casas, da soleira á cimalha, penetrando-as, varejando-as indiscretamente com uma ganancia de imprevistos, com uma avidez de novidades... mas desciam desenganados porque a rua que eu antevira, a rua que eu sonhara... Ó divinos jardins suspensos! ó avenidas de loureiros e de anemonas! como estais longe da esplendida passagem que meus olhos viam em arroubos, quando me punha a pensar nesta viagem ao Rio e realizava, embevecido, de olhos fechados, deitado na relva, tamborinando no ventre, o meu passeio elegante pela calçada de marmore branco, refrescada, duas vezes ao dia, com esguichos d’agua de rosas. Não, decididamente eu não tinha razão—o que eu estranhava não era a rua do Ouvidor... todo esse pungitivo sentimento que me opprimia vinha da morte de uma illusão. Para os que não viram, para os que não sonharam coisa melhor, a rua é admiravel; mas para os que podem estabelecer confrontos, perdoa-me, arteria da civilisação patricia, perdoa-me, avenida da elegancia e do espirito fluminense, não passas de uma viela atarracada e sordida. O velhinho inclinou-se de novo com as mãos estendidas e meu tio voltou a occupar junto a mim o seu posto de elucidario.
—Então, Anselmo?
—Estou procurando o encanto, meu tio.
—Descança, descança, disse tomando-me o braço, elle é que ha de procurar-te. E estacando mostrou-me a rua com o mesmo gesto com que, em casa, do alto da casinhola, me havia mostrado o seu jardim: Então isto não te impressiona?
—Não, meu tio... e digo com sentimento.
—Esperavas alguma coisa como o boulevard des Italiens, como a calle Florida? acudiu Serapião, versado em guias.
—Coisa melhor! muito melhor!
O elucidario lançou-me um olhar carregado de pasmo.
—Contaram-me tantas maravilhas desta rua que não é muito que eu me confesse desilludido, porque o sentimento que, em verdade, subjugo é de indignação, a mais justa indignação contra todos quantos me atordoaram o espirito com exageradas fantasias e soberbas descripções de um fastigio incomparavel. Em casa de Marianno Gomes, o Dr. Gusmão, promotor, que parava, de vez em quando, alguns nickeis, no seu feminino palpite—a sota, durante uma longa noite de azar e de chuva, encurralando-me no vão de uma janella, falou-me, com a sua eloquencia de jury, longamente, calorosamente, ácerca da rua do Ouvidor, contando-me aventuras que havia gozado em companhia de um desembargador, homem culto e de gosto. Foi quem mais alarmou o meu espirito ingenuo, foi esse orgão da justiça publica o mais perverso e cruel dos mystificadores. O padre Coriolano que, de longe em longe, vem gozar no Rio um mez de inverno, disse-me, uma vez, em casa da Maria Balbina, que isto era como a Suburra de que fala Horacio: um lugar de vicios. Marianno Gomes, mais franco, explicou-me numa phrase sobria e devassa: «Que para a pandega não havia igual...!»
Mentiram todos: a lei, a religião e a batota. Isto é uma miseria! Nem aventuras, nem Suburra, nem pandega!