—Mas... tu és uma parcella insignificante. Para immortalisar um homem só o suffragio collectivo, e a urna aqui está. Tenho certeza de que o Simão, com um dia de rua do Ouvidor, faria mais pela gloria do seu estro do que tem feito com 28 annos de trabalho modesto no canto obscuro de Tamanduá, entre os milhos. Bastava que recitasse dois ou tres sonetos. E meu tio alongou o braço: O caminho da gloria é este, Anselmo.

—Não é feito de rosas, meu tio.

Davam tres horas e o calor escaldava. Meu tio propoz um grog gelado, no Paschoal. Iamos caminhando lentamente quando dei com os olhos em uma esplendida mulher loura, alva e rosada, de preto. Nos cabellos dourados uma especie de diadema régio, com duas cristas de pennas vermelhas, como no gorro do Mephistopheles, que eu vira, em tempos, numa illustração de Natal.

—Linda mulher, meu tio!

—Divina! concordou elle estacando para admirar. A loura aproximava-se coleando por entre a multidão, attrahindo os olhos lubricos, altiva, indifferente, com um andar soberbo de rainha, o collo farto escondido por um grande leque de plumas escuras, que ella agitava com languidez, como uma grande aza. Passou por nós e tive apenas o tempo de vêr a côr innocente e doce das suas pupillas azues, mais claras do que a celagem da altura e ainda mais suaves, a boca, pequenina e vermelha, uma curva sanguinea e humida. E o aroma que ficou á sua passagem, que delicioso!... Linda mulher! tornei voltando-me para admirar o airoso passo cheio de magestade e graça.

—É uma esculptura...

—Uma esculptura, meu tio. E, trincando o beiço, nervoso, tornei á phrase: Linda mulher! com effeito... Mas meu tio, que adiantara alguns passos, vendo-me parado a olhar, absorvido no vulto que desapparecia, chamou-me:

—Vem dahi. Vamos ao grog, que está quente a valer.

VI