Fomos descendo com vagar por entre a turba, ora collando-nos ás paredes, ora desviando-nos para o meio da rua para dar passagem ao feminino. Meu tio, apezar da sua corpulencia anafada, esgueirava-se sorrateiro e agil, sem perder a linha correcta que lhe dava o ar distincto de um diplomata em férias. Eu, porém, atordoado e zonzo, parava de instante a instante, evitando os esbarros e as collisões.
Uma rotunda senhora, de roxo, o rosto placido e sumarento, côr de goiaba madura, olhos fundos, de um brilho fulvo e máu, estacou diante de mim, ameaçadora e terrivel, inchando as bochechas molles, suffocada de ira. Precipitei-me para lhe dar caminho, mas com tal desazo, que nos encontrámos, frente a frente, numa umbigada tremenda. Foi horrivel! O vexame tirou-me de todo a calma. Dei um salto para a esquerda e encontrei a senhora, fugi para a direita, e ella... Assim estivemos um bom par de segundos num balancé ridiculo, até que fui repellido para o meio da rua, exhausto e com o chapéu na mão. E a senhora passou como uma avalanche, resmungando coisas atrozes contra mim. Ó divino De Maistre, queria que visses esse exemplar nedio e colerico do teu «bello animal», queria que o tivesses um minuto diante dos olhos para que me dissesses depois em que casta dos belluinos o classificarias.
Livre, respirei um momento, enxugando o suor que rolava copiosamente pelo meu rosto e, ancioso, perdido, alonguei os olhos procurando meu tio.
A multidão... a multidão... a promiscuidade terrivel... todas as variadas escamas desse camaleão—o povo (como disse uma vez em discurso o verboso promotor Gusmão, referindo-se ás mutabilidades da opinião popular, á versatibilidade da alma collectiva)... tonteava-me e meu tio, a preciosa escama celibataria e farta, sumida, longe da minha vista... Dei alguns passos attonito, desvairado, julgando-me perdido no oceano tumultuoso da populaça que me aturdia: os homens, com os seus cotovellos, as mulheres, com os seus olhos, com os seus cabellos, com o aroma que deixavam ficar no ambiente, como um pollen invisivel para fecundar o amor. Por fim, reconheci a voz de meu tio:
—Ó Anselmo!
Voltei-me ancioso e descobri-o á porta de uma casa, acenando-me.
Corri pressuroso e, mal nos encontrámos, desabafei: Que rua, meu tio! Que garganta! Que inferno!
Elle sorriu, sacudindo com um piparote alguma coisa que trouxera da multidão na golla do casaco, e, naturalmente, puxando-me pelo braço, collocou-me junto de umas caixas de biscoutos, ao lado de prateleiras carregadas de puddings e de frascos bojudos de geléas inglezas.
—Vamos ficar por aqui. Não ha mesa por emquanto. Lancei um olhar de exame á casa. Era uma sala vasta, dividida ao meio por uma linha resplandecente de columnas, de quatro faces, forradas de espelhos. O fundo era um grande espelho corrido do solo á linha branca do estuque, reflectindo, aprofundando o interior, rumoroso e cheio. As paredes, de alto a baixo, carregadas de garrafas; por dentro de um balcão de marmore e nickel, dois homens, em mangas de camisa, sacolejavam cocktails; ao centro, uma comprida mesa de serviço. A outra parte da sala era reservada á pastelaria e aos confeitos. Pelas vitrinas, frascos de compotas, latas de conservas; sobre o balcão pratos de fios d’ovos, bolos, tortas; nos mostradores semi-abertos alfenins e doces miudos, loiros: de creme; escuros: de chocolate, polvilhados de amendoas; pastilhas em bocaes enormes.
As portas estavam entulhadas de queijos, de salames e de linguiças e nos armarios de exposição os finos bombons em caixas artisticas, ornadas de chromos e polichinellos empanturrados de amendoas, sacolas e outras coisas de formas extravagantes—tartarugas, caixas de phosphoros e um Bismarck pançudo com o nome Boissier no retrospectivo lugar das palmadas na infancia, dos pontapés na virilidade.