Um grande aquecedor de empadas, rodeado de homens que mastigavam gulosamente. Do tecto, presas por fios negros, pendiam lampadas electricas.
Não havia uma mesa—todas cheias. Grupos de rapazes, os cotovellos fincados no marmore negro, gesticulando, falando alto, riam espremendo siphons. Senhoras cerimoniosas, com o véu levemente arregaçado, chuchurreavam sorvetes. Em uma mesa um rapaz loiro, imberbe, inclinado para o companheiro, pallido, de pince-nez, lia baixinho umas tiras de papel, levantando o braço direito em gestos supremos, todo arregaçado—o companheiro tinha os olhos perdidos no fundo do copo. Caixeiros azafamados passavam com bandejas carregadas, abriam garrafas, serviam pratos. Havia um rumor confuso e, de quando em quando, um berro: cognac! um nome: Barroso! e estouros de garrafas desarrolhadas, estrepito de louça, tinir de talheres...
Meu tio, que se voltara, disse-me confidencialmente:
—Tens aqui o Paschoal!
—É soberbo...!
—É chic.
De repente abandonou-me e foi-se precipitadamente, de esguelha.
—Com licença! Com licença! para a direita, para esquerda, porque era preciso incommodar os que faziam pacatamente a sua hora de lunch ou de vermouth, para dar passagem ao seu prodigioso ventre; e foi seguindo até o fundo da casa, junto ao grande espelho.
—Temos aqui uma! Temos aqui uma! disse, chamando-me. Já havia tomado duas cadeiras quando um sujeito magro, de cavaignac, avançou com um petiz ao collo, babujado de creme. Falou com a boca cheia: «Se lhe podia ceder uma cadeira?» Mas meu tio, com um sorriso, voltou-se, designando-me ao do cavaignac, como se lhe quizesse significar: «Bem vê que não é possivel, tenho aqui meu sobrinho.»
O homem agradeceu e foi-se com o petiz que chalrava, pedindo coisas, com os braços estendidos. Sentámo-nos. Uf!