—Bello rapaz.

—Boa prosa. Has de ouvil-o. Voltei-me, porque meu tio afastara a cadeira e já estava de pé. O Dr. Gomes, radiante e de braços abertos, apertou-o com intimidade.

—Meu sobrinho Anselmo... O Dr. Gomes de Almeida, meu amigo, apresentou meu tio. Trocamos um aperto de mão e sentámo-nos. O caixeiro, que voltava, inclinou-se passando pelo marmore uma toalha felpuda:

—Que ha de ser, Sr. commendador?

—Tres grogs.

—Não, não, acudiu o doutor—para mim, um cocktail. É a minha hora e em questão de habitos não transijo.

—Dois grogs e um cocktail, repetiu o caixeiro, deixando sobre a mesa um cartão minusculo. Meu tio, dirigindo-se ao doutor, disse indicando-me:

—É a primeira vez que vem ao Rio.

—A primeira vez! exclamou elle, cravando em mim os olhos claros.

—Estive aqui em janeiro de 72, cinco dias apenas, em um hotel. Grassava a febre amarella e meu pai, que viera para matricular-me em um collegio, ao fim de tres dias, resolveu abalar, aterrado, preferindo conservar-me ignorante, mas vivo, a seu lado, para governo das suas terras. Fugimos, e justamente no dia da nossa partida, no quarto proximo ao que habitaramos, faleceu um jovem americano electricista, que viera ao Rio por conta de um syndicato, tratar de uma empreza de campainhas. O correspondente, que nos escreveu, felicitando-nos pela retirada prudente, falou do pobre forasteiro dizendo que na agonia entrara a declamar em inglez umas coisas gementes, que mais tarde soube, pelo Dr. Azambuja, serem versos de Longfellow. Esse americano agonisando solitario entre os tabiques de um quarto de hotel, revendo na agonia as paisagens da Evangelina, nostalgico na suprema angustia, nunca mais me deixou o espirito. Apezar de o ter visto apenas uma vez, á mesa, não esqueci os traços femininos do seu rosto, de uma tez dourada e rosea, macia e branca como a de uma mulher. E tomei em tal horror o Rio que, apezar das reiteradas instancias de meu tio, fui-me deixando ficar entre as minhas arvores, onde não chega a peste.