—Pois não. Passou por nós uma loura lindissima!
—Uma...! Mas o Rio tem milhares, meu amigo. É preciso vel-as, conviver com ellas no meio em que vivem. Não é na rua do Ouvidor, creia: é nos salões, nos boudoirs... nos boudoirs...! Ah! as mulheres, as mulheres...! foram a minha perdição em viagem. Antes de ver os edificios, as bellezas naturaes e artisticas de um paiz, tratava de ver as mulheres e estou convencido de que é a mais bella coisa da Creação.
—Primeiro as hespanholas! aventurou meu tio com os olhos brilhantes de volupia, recostando-se no varão de metal que corria ao longo do espelho.
—Não sei, commendador, não sei. Olhe que as inglezas são lindissimas...!
Meu tio fez um momo.
—Espere, commendador, eu tambem pensava assim; mas em Londres convenci-me do contrario. Lembro-me sempre de uma noite em que se cantou o Ruy-Blas, no Covent-Garden... Commendador, não se descreve, creia, não se descreve. Imagine o senhor uma assembléa de estatuas, qual mais formosa, alvas de fascinarem, immoveis, numa attitude hieratica, com grandes aureolas feitas dos proprios cabellos louros. E os olhos azues, commendador, os olhos azues das miss! quem os cantará como elles merecem! A impressão que tive em presença dessas donzellas da antiga nobreza foi a que teria um pobre civilisado de hoje vendo subitamente abrir-se o céu pagão e apparecerem todas as deusas, todas as graças num zodiaco como aquelle hemicyclo de camarotes do theatro inglez. Que sei eu, commendador... Não havia uma mulher feia! Nem uma!
E espetou o dedo com convicção.
—Mas não têm vida, tornou meu tio, cruzando as pernas. São umas estatuas, como disse o doutor... E depois—que andar!
—Engana-se ainda, commendador. Decididamente o senhor precisa sahir do Rio. Londres é a patria das mulheres, convença-se, commendador. Não ha louras como em Londres.
—Não gosto de louras.