—Exactamente, fez elle; é que ella tem varios aspectos—este é um delles, o mais interessante, talvez. Caminhámos e o doutor, para falar com mais intimidade, tomou-me o braço. É a hora dos operarios. As modificações desta rua accusam-se pelos seus typos; são elles, por assim dizer, que lhe formam a physionomia e, o que é mais notavel—a cada um dos aspectos corresponde um cheiro especial. Olhei-o... e elle affirmou: Sim, meu amigo, um cheiro. Talvez não tenha observado que todos os homens, como todas as coisas, têm o seu aroma caracteristico... Pode-se perfeitamente distinguir as raças pelo cheiro, como um conhecedor distingue facilmente, apenas pelo olfacto, um genuino Xerez de uma falsificação. Chego a levar a minha mania a ponto de emprestar aroma ás coisas abstractas—á côr, ao som, ao sentimento. O branco é inodoro como a camelia; o vermelho cheira a cravo, o azul é o heliotropo. Ha trechos na Aida de uma tal intensidade suggestiva que, ouvindo-os, não só nos remontamos á vida sensual do Egypto pharaonico, como sentimos (note que me refiro aos temperamentos puros, faço excepção do imbecil, que não tem o olfacto esthetico) sentimos um fugitivo aroma de chrysanthemas. Não conheço a chrysanthema, mas o que senti, uma vez, ouvindo a Borghi cantar O fresche valli... devia ser forçosamente o aroma da flor do Oriente. A saudade tem o aroma da violeta, que tanto dura. A innocencia trescala a bogari, que é o lirio do monte, o crime tresanda á mandragora, que amedronta, atordôa e mata. Mas o povo, insisto, tem o seu cheiro especial—odor populi—e a rua do Ouvidor varia de aspecto e de aroma conforme a hora, conforme a gente. Ás quatro da manhan, com as ultimas estrellas, descem por este esophago, que vai dar ao estomago do Rio, que é a Praia do Peixe, grandes carroças atulhadas de verduras e de frutas, a lenha, os ovos, o pão e, algumas vezes, não raras, rebanhos. Uma manhan tive de refugiar-me em um vão de porta para evitar a furia de um garrote que tresmalhara. Passam carrocinhas levando pilhas de jornaes—é o pão da curiosidade que se vai espalhar pelo interior socegado levando á simpleza e á ingenuidade das cidades pacatas a bilis dos articulistas salvadores da Patria. Cheira a curraes e a hortas, a pão quente e a artigos de fundo.

Ás seis começa a vida do mercado—bandos de cozinheiros passam chalrando, com samburás empanturrados; cestos carregados de viveres, carros de mão cheios de legumes—tudo quanto sacía a fome fluminense, desde o ramo tenro de salsa até o quarto de vacca sangrento, que vai bambo, flaccido e gottejante, á cabeça dos carregadores. Cheira acremente a matadouro e a salsugem.

Mais tarde fede a lixo quando os grandes carroções da limpeza começam a asseiar as casas e a sujar as ruas. Ás seis e meia atrôam os pregões dos jornaes e apparecem as primeiras caras femininas—menagères economicas que vêm ao mercado, costureiras a caminho das officinas e as desgrenhadas e pallidas anemicas que vêm das aguas do mar exhaustas da caminhada, queixando-se das ondas que lhes maceraram o corpo delicado; passam tristes, somnolentas e molles, com uma cestinha, os cabellos soltos espalhados por cima de uma toalha, que trazem forrando as costas para resguardal-as da friagem perfida d’agua salgada. Ha um cheiro estranho de maresia, de sabonete Windsor e de bocejos.

Começa a descer o commercio: caixeiros apressados, em grupos, commentando as bambochatas da vespera, com grandes ares. O primitivo cheiro vai desapparecendo e espalha-se um apetitoso aroma de acepipes, um almiscar suave de molhos.

Ás dez os patrões, pesados do almoço, arrotando, empanzinados e fartos, descem; em seguida os capitalistas e as dyspepsias melancolicas. Vem subindo o cheiro caracteristico, o cheiro «meridies», como já alguem lhe chamou—mixto de fumo, de essencias e de guarda-roupa: sedas novas e camphora.

Ao meio-dia a primeira vaga polychromica, desde a elegante impaciente, que vem estrear um chapéu, até o mendigo que surge lentamente, com um realejo ao peito, gemendo palavras de piedade por elle e pelos filhos, em nome do Senhor. Começa o rumor e o cheiro mixto vai subindo. As portas ficam entulhadas, vão-se formando grupos e o commentario principia até gerar o primeiro boato que corre rapido augmentando sempre, de porta em porta, de circulo em circulo, como outr’ora passavam, nos campos gaulezes, as noticias de guerra, de trigal em trigal, de leira em leira.

Das tres ás cinco é a desfilada—a elegancia, o espirito, o trabalho, o vicio, a miseria: o Rio manda a sua embaixada diurna que passa numa promiscuidade fantastica de roda concentrica de lanterna magica baralhando-se, confundindo-se.

É nessa onda que passa lento e cabisbaixo, admirando a lealdade dos sapatos, que vão resistindo á marcha sem destino, o bohemio dessa familia eterna de Gringoire, com a alma cheia de sonhos, os labios borbulhantes de rimas, relembrando enternecidamente uns olhos azues que o fitaram na vespera, casta e santamente, mas estacando subito para reflectir na miseravel condição da materia que não vive, como o espirito, da contemplação do ideal, mas sordidamente, gulosamente do bife. Ás cinco essa onda vai desapparecendo.

—E o cheiro caracteristico, doutor? interrompi curioso.

—O cheiro?... sim—alguma coisa que se pode imaginar entre estes dois pólos: Guerlain e a Sapucaia. Só ás cinco, dizia eu, essa onda vai desapparecendo para dar passagem ao operario que vem dos arsenaes e das fabricas: tresanda a suor e a resina.