—A resina... porque?

—Francamente, não sei. E começou a farejar. Experimente, ha ainda um cheiro leve. Não sente? Não quiz entristecel-o, disse que sentia.

Elle, então, continuando: Demais, a hora é das flores. Ao crepusculo a rua do Ouvidor perfuma-se: toda a gente cheira bem. Á noite é insipida: cheira á comida como uma casa de pasto. Á meia-noite cheira á poeira e ás cinco recomeça.

—Hesiodo não subiu tanto no seu livro ambrosiaco, disse eu, lisonjeando-o e mostrando que tambem possuia os meus conhecimentos e elle sorriu vaidoso, encolhendo os hombros.

Chegaramos ao fim da rua. Escurecia. O céu, de um doce azul fino e nitido como o das porcelanas, tinha algumas estrellas; rodavam carros e um pelotão de soldados marchava pesadamente ao toque de uma corneta fanha. Voltámo-nos; no outro extremo da rua, apparecia uma nesga de céu abrasado como em chammas—uma boca de forja.

—Lindo crepusculo! E ficamos um momento contemplando. De repente o doutor sacudiu-me:

—E o commendador?...

—É verdade! meu tio...

Rindo ambos e de braço, como antigos camaradas, subimos a rua a grandes passos. Uma harpa gemia ao fundo de um café sombrio.

—O café e a musica, as duas forças vitaes deste paiz, disse o doutor com ironia. E curvámo-nos para marchar á cata de meu tio. Em menos de cinco minutos de marcha esbaforida chegámos ao Largo. A estatua do patriota, á luz mortiça do crepusculo, resplandecia com uns tons vivos de ouro polido. Havia um ajuntamento em volta de uma bandeirola vermelha; aproximámo-nos. Um homem barbado, de blusa, com uma casquete de lontra, apregoava panacéas exaltando as excellencias de um sabonete maravilhoso contra nodoas e tomando em dois dedos um pacotinho berrava: que até as manchas da reputação desappareciam com algumas fricções do invento mais notavel do seculo.